Uma avalanche de surpresas tomou conta dos participantes do Exame Nacional do Ensino Médio em 2025. Muitos viram médias tradicionalmente altas despencarem depois que a redação do Enem 2025 passou a ser avaliada por parâmetros pouco divulgados, embora o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) negue qualquer alteração formal.
Documentos internos, obtidos por corretores, revelam mudanças pontuais, porém decisivas, em três competências de um total de cinco. Enquanto alguns critérios ficaram mais abertos, outros tornaram-se mais rigorosos, provocando variações de até 200 pontos em relação aos anos anteriores.
Novo peso para repertório sociocultural afeta duas competências
Na competência 2, que avalia a compreensão da proposta e a aplicação de conceitos, o candidato continua obrigado a apresentar referências externas — livros, filmes ou autores — para sustentar a argumentação. A grande novidade, entretanto, apareceu fora do manual público: erros nessa seleção passaram a ser computados também na competência 3, responsável pela organização das informações.
Esse duplo impacto transformou o repertório sociocultural em critério decisivo. Professores ouvidos pela reportagem explicam que qualquer menção superficial, ou sem contextualização, agora gera descontos em dose dupla, reduzindo a nota final de modo expressivo. Para alunos acostumados a pontuar acima dos 900, o tombo para a casa dos 700 foi imediato.
Punições dobradas e insegurança
Corretores relataram que, após os treinamentos presenciais, receberam e-mails adicionais orientando a cruzar as duas competências. A orientação formalizou o que antes era apenas sugestão: desqualificar repertórios considerados “de bolso”.
Na prática, quem citou algum filósofo ou obra apenas para cumprir protocolo, sem relação direta com o tema proposto, sofreu penalidade duplicada. Candidatos como Guilherme, 23 anos, que jamais obtivera menos de 900 pontos, viram a nota cair para 740.
Para docentes do ensino médio, a falta de transparência gera um efeito colateral: a preparação focada em repertórios sólidos torna-se um exercício de adivinhação, algo que fere o princípio de isonomia entre participantes.
Competência 4 abandona contagem objetiva e adota termos subjetivos
Até 2024, a competência 4 mantinha uma regra quase matemática. Bastava utilizar operadores argumentativos entre parágrafos pelo menos duas vezes e inserir elementos coesivos em todos os blocos de texto para alcançar o topo da pontuação.
Em 2025, o quadro numérico sumiu. Termos como “presença regular”, “constante” ou “expressiva” substituíram o critério anterior, tornando o julgamento mais interpretativo. Para corretores, a mudança eliminou referências claras, obrigando cada avaliador a decidir, com base na experiência, se o texto apresenta coesão suficiente.
Subjetividade e discrepâncias
A consequência imediata foi a ampliação do hiato entre as notas dos dois avaliadores, gerando mais pedidos de terceira correção. Embora o Inep garanta triagem quando há divergência acima de 100 pontos, professores relatam que o aumento de recursos sobrecarregou o sistema.
A correção terceirizada, realizada pelo Cebraspe, manteve remuneração próxima de R$ 3 por redação. Segundo corretores, a alta demanda e a pressa para cumprir prazos potencializaram diferenças de interpretação, principalmente quando se avalia algo tão vago quanto “presença expressiva” de conectivos.
Para o leitor do Salão do Livro, interessado em boa escrita, o recado é claro: dominar conectores não basta; é preciso usá-los com propósito e coerência em todo o texto.
Proposta de intervenção: ausência de ação rende corte de 120 pontos
A quinta competência, responsável por verificar a proposta de intervenção, continuou exigindo cinco componentes: ação, agente, finalidade, meio e detalhamento. Entretanto, uma nota de rodapé — ausente de manuais públicos — elevou a punição para quem esquecer exatamente o item “ação”.
Se até 2024 qualquer omissão custava 40 pontos, em 2025 a falta de ação passou a gerar desconto de 120. O novo peso pegou estudantes de surpresa, sobretudo aqueles que confundiram finalidade com ação. O impacto apareceu em correções divulgadas no início de 2026, quando muitos já calculavam a inscrição no Sistema de Seleção Unificada (Sisu).
Consequências no acesso ao ensino superior
Pela primeira vez, o Sisu passou a aceitar as notas de três edições do Enem (2023, 2024 e 2025). A rigidez extra de 2025 colocou os calouros em disputa direta com concorrentes corrigidos por critérios menos duros, o que levantou questionamentos sobre equidade.
Estudantes que dependiam apenas da pontuação de 2025 sentiram desvantagem. Gabriel Gaspar, por exemplo, preferiu a Fuvest depois que sua nota de redação caiu de patamares acima de 900 para pouco mais de 700.
Especialistas defendem que mudanças de peso ou método sejam divulgadas com antecedência mínima de um ano. Sem isso, a confiança no exame nacional e em seu papel como porta de entrada para a universidade pública fica abalada.
Corretores entre sobrecarga e baixa remuneração
O novo cenário também afeta quem avalia. Com ganho médio de R$ 3 por texto, corretores relatam jornadas de até 200 redações por dia. Instabilidades no sistema e orientações contraditórias entre supervisores ampliam a insegurança, afirmam profissionais que pediram anonimato.
Em resposta, o Inep reforça que mantém dupla correção e, em caso de divergência, encaminha a redação a um terceiro avaliador para garantir justiça e equilíbrio. Contudo, até o momento, o órgão não comentou a remuneração nem a sobrecarga.
Diante desse quadro, alunos, professores e avaliadores aguardam posicionamento oficial sobre futuras edições do exame, na esperança de que critérios claros e estáveis tragam previsibilidade tanto para quem escreve quanto para quem corrige.


