A segunda-feira, 9 de fevereiro, entrou para o calendário da saúde pública brasileira. No Instituto Butantan, em São Paulo, começaram as aplicações da Butantan-DV, a primeira vacina brasileira contra dengue produzida inteiramente no país.
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e vice-presidente Geraldo Alckmin acompanharam o ato simbólico, que marca a largada de um programa de vacinação de larga escala previsto para ganhar fôlego nos próximos dois anos.
Primeiro dia de aplicação marca passo decisivo no combate à dengue
O início da imunização concentra-se nos profissionais de saúde da Atenção Primária. A escolha do grupo busca proteger quem atua na linha de frente das Unidades Básicas de Saúde (UBS) e garantir a continuidade dos serviços durante períodos de alta transmissão.
Ao todo, 650 mil doses já foram distribuídas pelo Ministério da Saúde, número que cobre pouco mais da metade dos 1,2 milhão de trabalhadores contemplados nesta etapa inaugural. O restante do quantitativo será enviado conforme o cronograma de fabricação avançar.
Diferente dos imunizantes importados, a vacina brasileira contra dengue é de dose única e age contra os quatro sorotipos do vírus. Com isso, elimina a necessidade de retorno ao posto para reforços, fator que costuma reduzir a adesão em campanhas de vacinação.
O Butantan desenvolveu a fórmula a partir de vírus atenuado, tecnologia parecida com a usada contra febre amarela. Estudos clínicos apontaram eficácia próxima de 80 % na prevenção de casos sintomáticos e redução expressiva de hospitalizações.
O ministro da Saúde, Nísia Trindade, destacou que “o país conquista autonomia estratégica em um momento no qual surtos de dengue pressionam o sistema público”. Apenas em janeiro, mais de 120 mil infecções foram registradas no território nacional.
Como será a distribuição da vacina brasileira contra dengue
Fase inicial prioriza Atenção Primária
A logística de entrega envolve transporte refrigerado e monitoramento por lotes para garantir a estabilidade do produto até chegar às salas de vacinação. Cada estado recebeu remessas proporcionais ao número de profissionais da rede básica.
Segundo a pasta, as secretarias estaduais repassam os frascos às prefeituras, responsáveis por operacionalizar os pontos de aplicação. A expectativa é concluir a primeira fase até o fim do semestre, caso o ritmo de produção seja mantido.
Ainda não há previsão de liberação para outros grupos de risco, como gestantes ou crianças. A estratégia, neste momento, é blindar quem mantém o SUS funcionando e reduzir afastamentos por adoecimento.
Expansão para 15 a 59 anos começa em 2026
O governo federal definiu que, no segundo semestre de 2026, a vacinação será aberta à população geral de 15 a 59 anos. A ampliação seguirá ordem decrescente de idade, iniciando pelas faixas mais velhas.
Para alcançar esse público, a capacidade de produção terá de crescer até 30 vezes. A meta será viabilizada por um acordo com uma farmacêutica chinesa, que transferirá equipamentos e tecnologia de envase em alta velocidade.
Quando esse volume chegar à linha, o programa nacional de imunização terá autonomia para fornecer as doses sem depender de importações, cenário que encarece custos e impõe riscos de atraso – problema observado durante a pandemia.
Investimentos garantem autonomia nacional na produção de imunizantes
O plano do Ministério da Saúde destina R$ 1,4 bilhão à modernização do Complexo Industrial da Saúde. Parte do recurso erguerá fábricas de vacinas de RNAm, tecnologia popularizada com a covid-19 e hoje apontada como promissora para outras doenças tropicais.
Outra fração do orçamento servirá para ampliar a produção de soros e insumos, diminuindo a dependência de importados usados em vacinas como HPV e DTPa. A medida também deve atenuar o impacto financeiro no orçamento do SUS a médio prazo.
Além de fortalecer o parque fabril, os investimentos atraem atenção sobre a política de compras governamentais. Especialistas lembram que, sem planejamento, repasses bilionários podem ser afetados por decisões judiciais relacionadas a bloqueio de contas bancárias, o que exigiria realocação de verbas.
O Instituto Butantan estima que a linha de produção da vacina brasileira contra dengue gere 700 empregos diretos na capital paulista e dobre essa cifra em postos indiretos. O salário médio nos laboratórios gira em torno de R$ 6 mil, valor acima da média do setor público na área de saúde.
Enquanto isso, a população acompanha os avanços pelas manchetes e busca entender quando poderá receber a picada. No Salão do Livro, leitores interessados em ciência e políticas públicas demonstram curiosidade sobre a eficácia do imunizante e sobre os prazos de entrega anunciados.
Quem planeja viagens ou precisa organizar pagamentos durante o período de expansão da cobertura deve ficar atento a feriados prolongados. No ano em que a vacinação chegará à população geral, bancos fecharão no Carnaval, ajustando vencimentos de contas e impactando o fluxo de quem depende do atendimento presencial para resolver pendências.
A Butantan-DV passa, agora, pela etapa de farmacovigilância pós-comercialização. Profissionais de saúde estão orientados a notificar qualquer evento adverso, mesmo leve, para que o banco de dados nacional seja atualizado em tempo real.
Com a chegada da vacina brasileira contra dengue, o país busca reduzir o número de casos graves e aliviar a lotação hospitalar. Se o cronograma for respeitado, 2026 marcará o início da imunização em massa de uma doença que, historicamente, sobrecarrega o sistema de saúde a cada verão.


