Deixar toda a papelada do Imposto de Renda para a última hora costuma ser um convite a erros, retrabalho e sustos com a Receita Federal. Pensando nisso, especialistas recomendam separar ainda em 2024 os comprovantes que vão embasar a declaração do IRPF 2026, cujo ano-calendário é 2025. A medida reduz a chance de pendências e ajuda o contribuinte a aproveitar todas as deduções a que tem direito.
O Salão do Livro reuniu, em um só guia, as principais regras de obrigatoriedade, a lista completa de documentos e os motivos que justificam uma organização antecipada. Confira a seguir.
Quem será obrigado a entregar a declaração em 2026
O fisco exige a entrega da declaração de quem, em 2025, atingir pelo menos um dos critérios de renda, patrimônio ou operação financeira. O principal deles continua sendo a soma de rendimentos tributáveis — salários, aposentadorias, aluguéis e honorários — acima de R$ 33.888 no ano.
No entanto, nem só quem recebe salário alto entra no radar da Receita. Quem obteve mais de R$ 200 mil em rendas isentas ou tributadas exclusivamente na fonte, como indenizações ou prêmios de loteria, também será convocado.
Atividade rural e patrimônio elevado
Produtores rurais que faturarem acima de R$ 169.440 em 2025 precisam declarar, independentemente de lucro ou prejuízo. Já quem mantiver, em 31 de dezembro, bens e direitos que, somados, ultrapassem R$ 800 mil — imóveis, veículos, cotas de empresa ou criptoativos — cairá na mesma obrigação.
Entram ainda nesse grupo os contribuintes que realizarem operações em bolsa de valores, apurarem ganho de capital na venda de bens ou quiserem compensar prejuízos de anos anteriores, especialmente em renda variável.
Em resumo, mesmo quem não atinge o limite de salário pode se ver na lista caso tenha movimentações relevantes em investimentos ou possua um patrimônio robusto.
Documentos que precisam ser guardados desde já
O maior aliado para uma declaração livre de pendências é o arquivo pessoal atualizado. Guardar recibos, informes e notas fiscais ao longo do ano evita correria em cima do prazo final, geralmente entre março e abril. Veja o checklist básico:
Comprovantes de identificação e bancários
Comece pelo essencial: CPF do titular e de todos os dependentes, bem como dados bancários corretos para restituição ou pagamento de DARF. Vale checar se o endereço e o telefone cadastrados no portal gov.br estão atuais.
O mesmo vale para eventuais MEIs ou empresas na qual o contribuinte seja sócio: ter o CNPJ em mãos facilita o preenchimento dos bens.
Rendimentos, despesas dedutíveis e investimentos
Os informes de rendimento emitidos por empregadores, bancos e corretoras costumam ser liberados apenas em janeiro ou fevereiro. Mesmo assim, já é possível salvar holerites, extratos parciais de aplicações financeiras e notas de serviços prestados durante o ano.
Para quem pretende aproveitar ao máximo as deduções, recibos de consultas médicas, exames, mensalidades escolares e comprovantes de pensão alimentícia devem ser arquivados em sequência cronológica. Dessa forma, o contribuinte evita inconsistências entre o que declara e o que será cruzado pela Receita.
Não se esqueça da parte patrimonial: escrituras de imóveis, contratos de financiamento, CRLV de veículos e relatórios de compra e venda de criptoativos precisam estar acessíveis. Eles ajudam a justificar variações de patrimônio ou eventuais ganhos de capital.
Organizar toda essa documentação também facilita a comparação com a última declaração entregue. Ter o arquivo do IR anterior como base elimina retrabalho e mostra imediatamente se houve omissões.
Por que começar a triagem ainda em 2024
Antigamente, bastava abrir o programa gerador, digitar rapidamente os números e torcer para não cair na malha fina. Hoje, com o nível de cruzamento de dados da Receita, cada informação incorreta acende um alerta automático.
Separar documentos ao longo do ano:
- Reduz o risco de esquecer rendas pequenas, como alugueis esporádicos;
- Evita lançamentos duplicados ou valores trocados entre dependentes;
- Garante que deduções médicas possuam notas fiscais válidas e completas;
- Permite planejar aportes em previdência privada dentro do limite de 12%;
- Melhora o acompanhamento da restituição, já que inconsistências atrasam o pagamento.
Esse cuidado é ainda mais importante para quem acumula rendimentos de fontes diversas. Se o trabalhador CLT faz freelas como autônomo, por exemplo, cada uma dessas rendas segue regras de recolhimento distintas e precisa constar na ficha correta.
Outro ponto sensível envolve as mudanças constantes na legislação. Novas regras para vales refeição e alimentação, por exemplo, já estão em vigor e alteraram o formato dos descontos na folha. Esse tema pode impactar a base de cálculo do IR e vale acompanhar as atualizações sobre o VA e VR antes de preencher a declaração.
Impacto da malha fina e como evitá-la
Deixar de informar um rendimento, digitar um zero a mais ou lançar uma despesa médica sem recibo são deslizes que ainda colocam milhares de brasileiros na malha fina. O processo de regularização tende a ser burocrático e pode resultar em multa de até 150% do imposto devido.
Para escapar desse cenário, o contribuinte deve monitorar periodicamente o e-CAC — portal de atendimento da Receita — e responder a eventuais intimações dentro do prazo. Também ajuda conferir se o CNPJ informado nos recibos médicos está ativo; dados divergentes travam a restituição.
A Receita libera, geralmente a partir de janeiro, a consulta aos dados já recebidos das fontes pagadoras. Importar essas informações para o programa oficial é a melhor maneira de minimizar digitação manual e evitar erros simples.
Onde e quando enviar a declaração
O envio acontece exclusivamente nos canais oficiais: programa para computador, aplicativo para celulares ou diretamente no portal gov.br. O prazo costuma abrir na primeira quinzena de março e terminar entre o fim de abril e o início de maio, mas datas exatas ainda serão confirmadas.
Quem pretende receber a restituição nos primeiros lotes deve entregar a declaração logo nos primeiros dias. Além disso, contribuintes que optam pelo débito automático do imposto devido precisam submeter o documento até, no máximo, a última semana de março.
Vale lembrar que, em 2026, será possível acompanhar o calendário completo e a nova tabela progressiva no artigo dedicado ao assunto: Imposto de Renda 2026: calendário, tabela e checklist.
Por fim, separar comprovantes desde já é a estratégia mais simples — e barata — para garantir uma declaração sem dores de cabeça. O cuidado constante com recibos, informes e notas fiscais mantém a regularidade fiscal e evita surpresas desagradáveis quando o leão bater à porta.


