O ambiente político em Brasília amanheceu mais tenso nesta quarta-feira. A nova pesquisa Quaest, contratada pela Genial Investimentos, apontou que a diferença entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro caiu para apenas cinco pontos percentuais.
Mesmo liderando todos os cenários de segundo turno, Lula enfrenta agora a margem mais estreita desde o início das medições. Os dados preocupam o Planalto e consolidam Flávio como principal figura da oposição após a desistência de Tarcísio de Freitas de concorrer ao Planalto.
Cenário de segundo turno indica disputa acirrada
O recorte principal do levantamento mostra Lula com 43% das intenções de voto contra 38% de Flávio Bolsonaro. Os indecisos somam 2%, enquanto brancos e nulos chegam a 17%. Em janeiro, o petista marcava 45% e o opositor, 36%.
O estreitamento da distância reflete, segundo analistas ouvidos pela Quaest, uma oscilação negativa do governo em meio às notícias econômicas e a uma oposição que escalou o discurso nas últimas semanas. A tendência confirma a tese de que 2026 deve repetir a polarização de pleitos recentes.
Independentes migrando de lado
Entre os eleitores que não se identificam com nenhum partido, grupo considerado decisivo, a retração é ainda mais sensível. Em janeiro, Lula superava Flávio por 16 pontos entre os independentes; agora, a diferença é de apenas cinco (31% a 26%).
A retração acende alerta entre marqueteiros do governo. Essa fatia do eleitorado costuma reagir rapidamente a temas de bolso, como inflação e emprego, além de se incomodar com conflitos institucionais.
O Planalto avalia que programas sociais, como o Bolsa Família, podem recuperar parte desse segmento, mas reconhece que pautas de ressonância imediata, a exemplo do preço dos alimentos, pesam mais que anúncios futuros.
Percepção econômica pesa no humor do eleitor
A pesquisa Quaest traz recorte específico sobre a avaliação de governo: 49% desaprovam a gestão Lula, contra 45% que aprovam. Em paralelo, 43% dizem que a situação econômica piorou nos últimos 12 meses.
Medidas como o reajuste do salário mínimo e a antecipação do 13º do INSS esbarram na sensação de que o dinheiro “não rende” no fim do mês. Até iniciativas voltadas a renegociação de dívidas perdem força quando o custo básico da cesta aumenta.
Nesse contexto, decisões de impacto futuro, como a suspensão da CNH como instrumento de cobrança a partir de 2026, acabam ofuscadas pela urgência do presente, mas reforçam o clima de instabilidade no debate público.
Outros confrontos mantêm vantagem petista
O instituto testou ainda Lula contra nomes classificados como “terceira via” ou direita moderada. O presidente supera todos com folga superior a dez pontos, exceto o governador paranaense Ratinho Júnior, que perde por oito pontos (43% a 35%).
Nos demais duelos, as distâncias se ampliam: Ronaldo Caiado aparece 10 pontos atrás; Romeu Zema, 11; e Eduardo Leite, 14. Esses resultados reforçam a leitura de que a marca Bolsonaro concentra o capital político oposicionista neste momento.
A força do sobrenome Bolsonaro
Segundo a Quaest, 69% dos eleitores já sabem que Flávio é o candidato apoiado por Jair Bolsonaro. Além disso, 44% consideram correta a decisão do ex-presidente de indicar o filho como herdeiro político, percentual que vem crescendo desde dezembro.
A pesquisa registrou ainda que a base bolsonarista se mantém mobilizada nas redes. Em contraste, setores do petismo mostram menor engajamento digital desde o fim do ciclo eleitoral de 2022.
Para integrantes do Salão do Livro que acompanham a comunicação governamental, o desafio de Lula é retomar a narrativa positiva em um terreno onde as hashtags críticas ganham força com rapidez.
Tendências para o próximo semestre
Analistas políticos apontam que as próximas sondagens poderão confirmar se a aproximação entre Lula e Flávio é pontual ou tende a se consolidar. O governo aposta em entregas concretas, como o novo PAC, para melhorar a avaliação popular.
A oposição, por sua vez, deve intensificar visitas a redutos onde o petista ainda domina, enquanto explora temas econômicos. Já estão previstas caravanas de Flávio ao Nordeste, região em que Bolsonaro pai fez investimentos políticos no segundo mandato.
Disputa pelo centro do debate
Politólogos observam que, apesar da crescente polarização, o centro permanece decisivo. Propostas ligadas à transparência fiscal e reformas pró-mercado podem ser decisivas para atrair quem hoje declara voto branco ou nulo.
Ao mesmo tempo, pautas sociais continuam relevantes. Programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, seguem populares: a última pesquisa Datafolha mostrou aprovação de 74%. Nesse ponto, o governo testa estratégias para antecipar pagamentos via Caixa Tem, assim como ocorreu em fevereiro, sem desagradar quem cobra responsabilidade fiscal.
Economistas lembram ainda que 49 milhões de brasileiros têm valores esquecidos em bancos, segundo o Banco Central. Esse tipo de informação, explorada em campanhas informativas, ajuda qualquer governo a reforçar a imagem de quem “bota dinheiro no bolso” do eleitor.
Com o calendário político se acelerando, a próxima rodada da pesquisa Quaest será observada de perto por todos os atores envolvidos. Até lá, cada movimento – do preço do feijão às articulações no Congresso – pode deslocar pontos valiosos nessa disputa que, a cada mês, ganha contornos mais apertados.


