Apontado como vilão da distração acadêmica, o celular passou a ter circulação controlada em salas de aula de grandes instituições particulares de São Paulo. O semestre começou com placas de “guarde o telefone” e avisos dos professores de que o aparelho só poderá sair do bolso para atividades pedagógicas.
A regra repete um movimento global que busca blindar a atenção dos alunos adultos, mas também desperta questionamentos sobre autonomia universitária. Enquanto parte dos estudantes protesta, outras vozes comemoram o silêncio das notificações interrompidas.
Como surgiu a nova política de proibir celulares no ensino superior
Três das mais tradicionais universidades particulares da capital paulista anunciaram a mudança ainda em janeiro, durante reuniões de boas-vindas. Coordenadores explicaram que o uso irrestrito do telefone vinha comprometendo a dinâmica de aula, situação relatada por docentes desde o retorno presencial pós-pandemia. O regulamento libera o aparelho somente quando atividades exigem pesquisa online ou ferramentas de interação, e sempre sob orientação do professor.
Segundo as reitorias, não se trata de punir a vida digital do aluno, mas de “recuperar a escuta ativa” dentro da sala. A medida prevê advertência leve na primeira infração e, em casos reincidentes, registro disciplinar. Embora o controle pareça rígido, as instituições alegam ter se inspirado em evidências científicas que apontam queda de rendimento ligada a multitarefas com dispositivos móveis.
Dados internacionais embasam a decisão
Uma das pesquisas citadas pelos gestores foi conduzida nos Estados Unidos com universitários de diferentes áreas. O levantamento identificou melhora de até 17 % nas notas finais após a adoção de políticas de banimento parcial em sala. Na China, outro estudo comparou turmas semelhantes, uma com telefone livre e outra com telefone restringido. O grupo sem celular apresentou maior participação oral e melhor retenção de conteúdo em testes de curto prazo.
O caso mais amplo vem da Índia: 17.000 estudantes foram acompanhados por dois anos. Ali, a ausência do smartphone durante atividades expositivas reduziu em 26 % a taxa de abandono de disciplina, indicador que chamou atenção de administradores brasileiros. Esses resultados contribuíram para convencer as universidades paulistas de que a restrição poderia trazer ganhos tanto cognitivos quanto comportamentais.
Apesar dos números promissores, pesquisadores lembram que fatores culturais e infraestrutura – como bibliotecas atualizadas e redes de Wi-Fi estáveis – também influenciam o sucesso da medida. Assim, cada campus precisará monitorar o impacto local para ajustar rotas.
A reação dos alunos ao veto dos celulares
No primeiro dia de aula, muitos estudantes estranharam o novo cenário. “Senti falta de tirar foto do slide”, contou uma aluna de publicidade, ao destacar que costuma revisar o material pelo rolo da câmera. Outros, porém, admitiram alívio: “Eu me perdia no Instagram sem perceber. Agora prestei atenção na explicação inteira”, confessou um calouro de engenharia.
Representantes de centros acadêmicos afirmam que não foram consultados, mas pretendem acompanhar o efeito na qualidade das aulas antes de lançar campanhas contra a regra. Já professores relatam clima mais focado e citam diminuição de conversas paralelas. A curto prazo, o principal desafio será equilibrar disciplina e flexibilidade, especialmente em cursos que dependem de aplicativos específicos para exercícios em tempo real.
Diante das reações, as instituições planejam canais permanentes de escuta, com pesquisas online — ironicamente acessadas pelo celular fora do horário de aula — para medir satisfação e sugerir ajustes.
Visão de especialistas: distração ou recurso pedagógico?
Convidado do podcast O Assunto, o jornalista educacional Antônio Gois contextualizou a decisão paulista dentro de um movimento global de responsabilização tecnológica. Para ele, “o problema não é o aparelho em si, mas a forma como se integra à proposta pedagógica”. Gois lembra que há excelentes aulas que usam redes sociais como fonte primária de dados, assim como existem palestras tradicionais que pegam fogo quando os smartphones tocam.
O especialista destaca que, no ensino básico, a discussão costuma girar em torno de comportamento infantil; já na universidade, o foco recai sobre autonomia. “São adultos que deveriam saber autorregular a atenção, mas a enxurrada de notificações cria um contexto adverso”, avalia.
Quando o celular vira aliado da aprendizagem
Mesmo universidades que proibiram o aparelho mantêm laboratório de mídias móveis, onde turmas praticam entrevistas, gravação de podcasts e programação de aplicativos. Nesses espaços, o smartphone não só é liberado como se torna ferramenta central de produção de conteúdo, mostrando que a política não pretende demonizar a tecnologia.
Professores de química relatam uso de realidade aumentada para visualizar moléculas; colegas de arquitetura fazem medições em campo com sensores acoplados ao telefone. Esses exemplos reforçam a necessidade de distinção entre uso recreativo e uso acadêmico. Segundo Gois, “o debate real não é ‘celular sim ou não’, mas ‘qual experiência de aprendizagem queremos oferecer’”.
Para acomodar as duas vertentes, algumas faculdades consideram zonas mistas: anfiteatros livres de aparelhos e salas maker onde dispositivos são obrigatórios. A adequação dependerá do perfil do curso e do professor, sempre respeitando as diretrizes gerais da instituição.
Possível efeito dominó em outras instituições
Questionadas sobre a novidade paulista, universidades federais observam o caso “com interesse”. Uma delas confirmou ao Salão do Livro que estuda criar, no próximo semestre, um projeto-piloto em disciplinas de grande porte, como cálculo. Gestores afirmam que esperam resultados concretos — e relatos de dificuldade ou êxito — antes de levar o assunto ao conselho universitário.
No setor privado, mantenedoras de médio porte também monitoram a repercussão. Analistas de mercado educacional acreditam que uma eventual melhora nos índices de retenção e satisfação do aluno pode virar argumento de marketing, impulsionando a tendência. Afinal, em épocas de evasão acelerada, qualquer diferencial que sinalize qualidade acadêmica ganha destaque.
A longo prazo, o debate deve se deslocar para a formação docente. Especialistas defendem que futuros professores aprendam, ainda na graduação, a desenhar estratégias que utilizem ou dispensem o celular conforme o objetivo da aula, evitando proibições genéricas.
O que esperar dos próximos semestres
As três universidades paulistas prometem divulgar relatórios semestrais com estatísticas de desempenho e percepção discente. Indicadores como presença, média de notas e participação em fóruns virtuais serão comparados ao período pré-regra. Caso o balanço mostre avanço modesto, ajustes pontuais — como liberar fotografias de slides — já são cogitados por alguns colegiados.
Enquanto isso, o movimento estudantil foca no direito à autonomia. Líderes dizem temer que o veto abra precedentes para restrições sobre laptops e smartwatches, dispositivos igualmente suscetíveis a dispersões. Universidades respondem que não há intenção de ampliar proibições, apenas de criar ambiente menos hostil à concentração.
Riscos de judicialização e consensos emergentes
Até o momento, não há ações judiciais contra a medida, mas advogados especializados em educação lembram que o Código de Defesa do Consumidor pode ser acionado se o aluno entender que a regra fere expectativas contratuais. Mesmo assim, a via negociada tende a prevalecer, pois as instituições demonstram abertura para refinamentos.
Um ponto de acordo entre todos os lados é que o celular se tornou extensão da vida estudante: carrega livros digitais, bilhete de transporte, aplicativos bancários. Por isso, a proibição deve ser temporária, circunscrita ao tempo de aula. Ninguém fala em recolher aparelhos na entrada do campus, prática que seria inviável e impopular.
No fim, universidades, docentes e discentes caminham para um meio-termo em que o telefone deixa de atrapalhar a aprendizagem sem ser demonizado. O próximo semestre, com seus relatórios e ajustes, indicará se o modelo paulista se consolidará ou se novas abordagens virão. Até lá, o debate sobre celulares no ensino superior permanece aberto — e, ironicamente, bem vivo nas redes sociais.


