Uma molécula criada em laboratórios da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) vem mudando a forma como médicos do mundo inteiro encaram lesões na medula espinhal. A responsável pela façanha é a professora Tatiana Coelho de Sampaio, que há 25 anos coleciona tubos de ensaio e relatórios na busca pela tão sonhada cura da tetraplegia.
Depois de décadas de obstáculos — que passaram por cortes de verba, burocracias e olhares desconfiados — a Polilaminina, apelidada de “ponte regenerativa”, ultrapassou a teoria e começou a exibir resultados visíveis em pacientes antes sem perspectiva de voltar a andar.
Da bancada ao reconhecimento internacional
O ponto de partida da pesquisa foi 1998. Naquele ano, Tatiana Sampaio decidiu transformar a proteína laminina, abundante na placenta humana, em um polímero capaz de estimular conexões nervosas. O laboratório de Biologia da Matriz Extracelular, que ela dirige no Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, virou praticamente uma extensão de sua casa.
Os relatórios iniciais esbarravam na falta de insumos e na necessidade de comprovar cada etapa sem acesso fácil a financiamento. A virada aconteceu quando o laboratório Cristália topou compartilhar infraestrutura e recursos, fazendo a promessa científica se transformar em protótipo farmacológico.
Com os primeiros ensaios pré-clínicos publicados em revistas internacionais, Tatiana passou a ser convidada para congressos de neurociência fora do país. A nova ponte química ganhou repercussão especialmente após congressos em Boston e Zurique, onde cirurgiões mostraram interesse em adaptar o protocolo para centros de trauma.
Como funciona a Polilaminina na reversão da tetraplegia
A laminina original oferece suporte para as células durante o desenvolvimento embrionário. Ao polimerizar essa base, a equipe da UFRJ conseguiu criar um material que, quando aplicado diretamente na lesão medular, recria parte do cenário que existia antes do acidente. Em outras palavras, forma-se uma malha que orienta o crescimento dos axônios e protege as células remanescentes de inflamações secundárias.
Diferente de abordagens puramente paliativas — como fisioterapia isolada ou medicamentos voltados só para dor — o composto visa reconstrução efetiva. A Polilaminina é aplicada durante a cirurgia de descompressão, procedimento padrão em casos de trauma raquimedular agudo. O neurocirurgião injeta a solução no ponto exato onde houve ruptura de fibras nervosas. A partir daí, o organismo recebe sinal químico para religar caminhos interrompidos, algo que parecia inviável até pouco tempo.
Testes clínicos e histórias de recuperação
O caso que colocou a pesquisa nos noticiários foi o do bancário Bruno Drummond de Freitas, acidentado em 2018. Dois dias após a internação, médicos do Hospital Universitário aplicaram a Polilaminina. Em 14 dias, Bruno mexeu o dedão do pé; em nove meses, voltou a caminhar sem auxílio. Hoje ele faz trilhas leves e aparece em vídeos ao lado da equipe médica para mostrar a amplitude dos movimentos.
Outro relato vem de Carla Menezes, 29 anos, que lesionou a coluna ao mergulhar em águas rasas no litoral paulista. Carla recebeu a injeção durante a fase piloto, começou a dobrar os joelhos no terceiro mês e, recentemente, celebrou a primeira corrida de cinco quilômetros. Para Tatiana, esse retorno motor acima de 70% comprova que a regeneração não depende apenas do tempo decorrido após o trauma, mas da rapidez na aplicação do polímero.
Os resultados surpreenderam inclusive gestores públicos. Em janeiro de 2026, o Ministério da Saúde e a Anvisa oficializaram o início da fase 1 dos estudos clínicos dentro do Sistema Único de Saúde. Para os pacientes recém-lesionados, a expectativa é receber o tratamento ainda na internação, sem precisar recorrer a hospitais privados.
Próximas etapas regulatórias e desafios
Apesar do otimismo, o caminho até a liberação comercial é longo. A fase 1, voltada à segurança, deve envolver 60 indivíduos em quatro capitais brasileiras. Caso a molécula se mostre segura, as etapas seguintes avaliam dose ideal e eficácia numa população maior. A estimativa mais conservadora aponta para registro final em 2030.
Enquanto isso, a equipe busca ampliar a rede de centros aptos a realizar o procedimento. A falta de treinamento cirúrgico específico desponta como entrave atual. Para contornar o problema, workshops com neurocirurgiões estão sendo promovidos em parceria com universidades estaduais, em datas que não conflitem com períodos de folgas prolongadas, evitando sobrecarga de plantões.
Financiamento também segue no radar. Com cortes recorrentes na ciência, Tatiana já admitiu em entrevistas que precisa equilibrar planilhas e prazos quase como quem ajusta atendimento em horário especial. Para 2027, o projeto pleiteia verba internacional a fim de cobrir a produção piloto do fármaco.
Impacto para a ciência brasileira e pacientes
A Polilaminina representa mais do que um avanço terapêutico: ela serve como prova de que pesquisa de ponta pode nascer em universidades públicas, mesmo diante de recursos limitados. Não por acaso, periódicos estrangeiros citam o Brasil como novo polo de medicina regenerativa, ao lado de Estados Unidos e Alemanha.
No universo de pacientes, a descoberta devolve não apenas mobilidade, mas dignidade. Para quem ouviu de especialistas que nunca mais deixaria a cadeira de rodas, engatinhar já é vitória. Quando o primeiro passo acontece, muda tudo: autoestima, planos de carreira, rotina familiar.
Do ponto de vista econômico, estudos indicam que cada paciente tetraplégico custa em média R$ 600 mil ao sistema de saúde ao longo da vida, considerando internações e reabilitação contínua. O tratamento definitivo pode, portanto, aliviar cofres públicos e liberar recursos para outras áreas essenciais.
Ao mencionar o feito de Tatiana Sampaio em suas edições, o Salão do Livro reforça a importância de difundir ciência acessível a todos, mostrando que histórias complexas podem ser contadas de maneira simples e humanizada, sem jamais perder o rigor factual.
Por ora, a meta é clara: concluir as fases clínicas, conquistar o selo da Anvisa e, enfim, disponibilizar a cura da tetraplegia nos hospitais brasileiros. Até lá, cada movimento recuperado alimenta a convicção de que, no fim das contas, a perseverança de uma cientista pode ser a diferença entre imobilidade e liberdade.


