Manter uma invenção protegida fora do país pode custar caro, e a história da patente da polilaminina deixa isso muito claro. A substância, desenvolvida na UFRJ para regenerar neurônios, perdeu sua blindagem internacional por falta de recursos.
O episódio traz um recado direto: sem financiamento contínuo, descobertas com alto potencial científico ficam vulneráveis a exploração estrangeira. A seguir, entenda por que R$ 800 mil fizeram tanta diferença.
Por que a patente internacional da polilaminina se perdeu
A patente da polilaminina foi registrada no Brasil e, em um primeiro momento, também cobria Estados Unidos, Europa e Ásia. Para manter esse guarda-chuva global, os titulares precisavam quitar taxas anuais que, somadas, batiam perto de R$ 800 mil.
Como o aporte público não chegou a tempo, o prazo venceu e a proteção expirou fora do território nacional. A partir daí, qualquer empresa estrangeira passou a ter liberdade para estudar, produzir e vender a molécula sem pagar royalties ao Brasil.
Consequências imediatas da perda de proteção
Sem a patente internacional, o país deixou de ter exclusividade sobre uma tecnologia que levou mais de 20 anos de pesquisa. O risco é que multinacionais avancem em versões próprias do composto, capturem mercados estratégicos e deixem para trás a equipe que originou o projeto.
Além disso, universidades e institutos federais perdem uma importante fonte de renda de longo prazo. Os ganhos que poderiam financiar novos laboratórios, bolsas e equipamentos acabam redirecionados para outras nações.
Embora a patente nacional siga válida, sua força de barganha diminui quando competidores globais já circulam livremente com o mesmo produto em mercados de alto valor.
Impacto financeiro de manter ou não a proteção global
Patentes internacionais costumam render royalties por até 20 anos. É dinheiro que entra em contratos de licenciamento, alianças com indústrias farmacêuticas e vendas de medicamentos. Para a polilaminina, estimativas apontam retornos que poderiam atingir bilhões de reais ao longo das próximas décadas.
Quando se coloca na balança, o custo de R$ 800 mil – valor que inviabilizou a renovação – parece modesto diante do potencial de faturamento. Mesmo assim, universidades públicas nem sempre conseguem incluir esse montante em seus orçamentos anuais.
Royalties que escaparam das mãos brasileiras
Se a patente da polilaminina tivesse sido mantida, qualquer laboratório fora do país interessado na molécula precisaria pagar licenças à UFRJ ou firmar joint ventures. Esses acordos gerariam renda recorrente para custear novas linhas de pesquisa.
Casos semelhantes mostram o tamanho da oportunidade perdida: institutos que sustentam patentes de sucesso chegam a arrecadar centenas de milhões de dólares, recurso que retroalimenta todo o ecossistema de inovação.
Agora, com a proteção rompida, a universidade fica limitada ao mercado interno. Mesmo que a substância vire medicamento de referência aqui, a fatia internacional – muito maior – poderá ser ocupada por concorrentes sem qualquer obrigação de repasse financeiro.
O que ainda mantém o Brasil na dianteira da pesquisa
A despeito da quebra da proteção global, a descoberta não foi abandonada. O laboratório Cristália firmou parceria para produzir a proteína e já conduz ensaios clínicos aprovados pela Anvisa. Esses testes avaliam a eficácia em pacientes com lesões graves na medula espinhal.
Em paralelo, a pesquisadora Tatiana Sampaio e sua equipe seguem investigando mecanismos de ação da molécula. A expectativa é que, confirmada a segurança, o composto chegue ao Sistema Único de Saúde, reforçando o papel nacional na medicina regenerativa.
Ensaios clínicos e parcerias nacionais
No primeiro semestre, voluntários com paraplegia começaram a receber doses controladas do produto em hospitais de referência. O objetivo é analisar ganhos de mobilidade e possíveis efeitos colaterais em até 24 meses.
Enquanto isso, companhias estrangeiras sondam acordos para a produção fora do Brasil. Sem a patente internacional, esses convites não garantem retorno financeiro direto, mas podem acelerar a adoção mundial da terapia.
Quem acompanha o tema pelo Salão do Livro já sabe que a pesquisa avança rapidamente. Detalhes técnicos sobre as fases de teste aparecem no artigo pesquisa avança e promete revolucionar tratamento para lesão na medula, reforçando a relevância clínica da substância.
Diante disso, o caso ilustra um dilema recorrente: a ciência brasileira demonstra competência para inovar, porém precisa de fontes estáveis de financiamento para transformar descobertas em produtos globais.


