Notificações insistentes no celular, posts alarmistas circulando em grupos de mensagens e a sensação de déjà vu levaram muita gente a acreditar que o horário de verão voltaria no dia 8 de março de 2026. A informação, no entanto, não passa de um boato que se espalhou sem qualquer respaldo técnico ou oficial.
Ao contrário do que viralizou, o governo federal não planeja adiantar os relógios em março — nem em qualquer outra data de 2026. Quando existia, a mudança acontecia entre outubro e fevereiro, período efetivamente considerado verão no hemisfério sul. A seguir, entenda como a confusão começou, por que o Brasil optou por manter a hora atual e o que fazer caso seu dispositivo altere o fuso sozinho.
Como surgiu o boato do horário de verão em 8 de março?
A data de 8 de março não foi escolhida ao acaso. Nesse mesmo dia, mas nos Estados Unidos, tem início o Daylight Saving Time, que adianta os ponteiros para aproveitar melhor a luz solar. Sistemas de agenda globais e alguns smartphones ainda mantêm a configuração automática baseada em calendários internacionais. Quando o dispositivo detecta a virada no hemisfério norte, costuma disparar alertas ou mesmo alterar o horário local sem aviso prévio.
Foi justamente esse “bug de calendário” que acendeu o sinal de alerta em redes sociais brasileiras. Usuários viram a notificação, tiraram print e compartilharam como se a informação fosse aplicável por aqui. Em poucos minutos, publicações ganharam milhares de curtidas, reforçando a desinformação. Para quem deseja se blindar desse tipo de engano, vale a pena conferir boas práticas de verificação, como as destacadas no guia sobre como checar informações falsas já publicado pelo Salão do Livro.
Por que a medida não faz mais sentido no Brasil
O horário de verão foi criado para reduzir o pico de consumo de eletricidade, sobretudo com iluminação pública, no final da tarde. Durante décadas, a estratégia gerou economia relevante para o Operador Nacional do Sistema (ONS). Hoje, porém, o cenário energético mudou.
Mudança no perfil de consumo de energia
A principal razão para descartar a medida está no deslocamento do horário de maior demanda. Se antes o pico ocorria por volta das 18h, agora o consumo dispara entre 14h e 16h, principalmente por causa do uso maciço de aparelhos de ar-condicionado em empresas, residências e centros comerciais. Adiantar os ponteiros em uma hora, portanto, já não reduziria o estresse sobre a rede no momento crítico.
Estudos recentes encomendados pelo Ministério de Minas e Energia (MME) revelam que a economia potencial em 2026 seria mínima. Além disso, diversos setores—aviação, bancos, plataformas digitais—teriam custos elevados para ajustar sistemas, aumentar testes e treinar equipes. A balança custo-benefício, segundo o governo, pendeu claramente contra o retorno da medida.
Vale lembrar que o Ministério monitora periodicamente os indicadores de transmissão e pode reavaliar a decisão no futuro, caso surjam evidências robustas de ganho coletivo. Por enquanto, a orientação é manter os relógios como estão.
Impacto das fontes renováveis na decisão
Outro ponto crucial envolve a expansão das energias renováveis, em especial a solar fotovoltaica. Nos últimos anos, painéis se multiplicaram em telhados residenciais, usinas e fazendas de geração distribuída, fornecendo eletricidade sobretudo nas horas mais quentes do dia. Manter o horário oficial atual favorece a coincidência da produção solar com o pico de consumo das primeiras horas da tarde.
Com maior oferta nesse intervalo, o país consegue aliviar o despacho de termelétricas — mais caras e poluentes — e preservar reservatórios de hidrelétricas. O cálculo foi fundamental para que o MME selasse a manutenção do fuso.
Ainda que economias residuais pudessem aparecer em iluminação pública, especialistas do ONS indicam que elas não superariam o incremento de custos logísticos, regulatórios e de comunicação que viria junto com o ajuste dos ponteiros.
O que fazer se o relógio do celular adiantar sozinho
Quem acordar no dia 8 de março e notar que o smartphone pulou uma hora à frente não precisa se desesperar. O primeiro passo é acessar as configurações do aparelho, procurar o menu “Sistema” e abrir “Data e Hora”. Desative a opção de “definir horário automaticamente” e ajuste manualmente para o fuso de Brasília (GMT-3). Feito isso, reative a função automática ou deixe-a desligada até ter certeza de que o erro não voltará.
Computadores, relógios de parede inteligentes e até smart TVs podem enfrentar o mesmo problema. A recomendação é semelhante: revise a zona de fuso, confirme se o dispositivo segue a base de dados mais recente ou, se preferir, aguarde atualização de software fornecida pelo fabricante.
Para além do engano pontual, o episódio serve de alerta quanto à importância de manter aplicativos e sistemas operacionais atualizados. Softwares antigos tendem a carregar tabelas de fusos horários desatualizadas, ocasionando confusão em datas marcadas por mudanças internacionais.
Enquanto isso, quem busca reduzir a conta de luz sem depender de acertos de ponteiro pode apostar em práticas simples: desligar aparelhos em modo stand-by, aproveitar ventilação natural e priorizar lâmpadas LED. E se você pensa em planejar gastos futuros, inclusive com projetos educacionais, vale ficar de olho em iniciativas como o programa de bolsas de R$ 1.050 do Pé-de-Meia Licenciaturas, que acaba de abrir inscrições.
Em resumo, não haverá horário de verão em março de 2026 no Brasil. O relógio oficial seguirá inalterado, e qualquer aviso em sentido contrário deve ser tratado como equívoco de sistema ou informação sem base oficial.


