Os números divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) evidenciam que, mesmo às portas de 2026, o trabalho análogo à escravidão segue firme no Brasil. Em meio a 1.594 operações fiscalizatórias realizadas em 2025, 2.772 pessoas foram libertadas de condições degradantes. O recorte racial e de gênero revela um retrato perturbador: a maioria absoluta das vítimas continua sendo composta por homens negros.
Além da repetição desse perfil, o balanço escancara uma mudança de cenário que exige atenção redobrada das autoridades. Pela primeira vez, a maior parte dos resgates ocorreu em perímetros urbanos, deslocando o foco tradicional da zona rural para canteiros de obras, pequenos galpões industriais e serviços espalhados pelos centros das grandes cidades.
Perfil das vítimas reforça desigualdade racial
Raça, gênero e faixa etária predominantes
Do total de trabalhadores resgatados em 2025, 86% eram homens e 83% se autodeclararam negros (pretos ou pardos). A faixa etária mais comum concentrou-se entre 30 e 39 anos, etapa da vida em que a busca por estabilidade financeira costuma ser mais intensa. O dado expõe, de maneira cristalina, como o racismo estrutural segue condicionando quem tem mais chance de acabar explorado.
A escolaridade limitada aparece como outro fator de vulnerabilidade. Segundo a Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), 68% das vítimas tinham apenas o ensino fundamental incompleto, 24% possuíam ensino médio completo e 8% eram analfabetas. A combinação de baixa qualificação e exclusão racial amplia o risco de aliciamento em atividades ilícitas.
Regionalmente, o Nordeste concentra 65% dos resgatados, com destaque para o Maranhão. O fluxo migratório de trabalhadores maranhenses para outras unidades da federação, em busca de ocupação na construção civil e na agricultura, alimenta redes de exploração que se expandem ano a ano.
Educação limitada e vulnerabilidade social
A falta de oportunidades formais faz com que muitos trabalhadores aceitem promessas de emprego sem garantias mínimas. Quando a proposta se revela uma armadilha, o indivíduo já está distante de casa, endividado e sem meios de recusar tarefas exaustivas. Esse ciclo aprisiona vítimas em jornadas de até 16 horas, sem acesso a água potável, equipamentos de proteção ou salário digno.
Não por acaso, a busca por alternativas de sustento à margem do emprego formal cresce. Plataformas digitais que oferecem renda extra atraem justamente o público que, muitas vezes, já esteve ou segue na linha de frente da precarização. Ainda assim, tais saídas raramente substituem a segurança de um contrato regido pela CLT.
No Salão do Livro, debates recentes sobre literatura social destacam obras que tratam de migração, racismo e trabalho forçado, ilustrando como a arte antecipa temas que a realidade insiste em expor.
Dispersão urbana muda mapa da exploração
Precarização além do campo
Ao analisar os 2.772 resgatados, a SIT constatou que 68% estavam em áreas urbanas. Até então, o senso comum associava o trabalho escravo contemporâneo a grandes fazendas de gado ou plantações isoladas. Hoje, operários são flagrados erguendo prédios sem carteira assinada, costureiras trabalham trancadas em porões e garis terceirizados relatam retenção de documentos.
Esse deslocamento urbano exige uma nova estratégia de monitoramento. Muitas violações ocorrem em pequenos estabelecimentos espalhados pela malha das capitais, onde a fiscalização se depara com pulverização de endereços e uso de subcontratações em cadeia. A multiplicidade de CNPJs dificulta a responsabilização dos verdadeiros beneficiários da exploração.
Setores de varejo também entram na mira. O ritmo de funcionamento de serviços, como supermercados, demonstra como a pressão por jornadas extensas persiste, ainda que não configure, necessariamente, escravidão. A fronteira entre horas extras abusivas e crime trabalhista, contudo, pode ser tênue em ambientes sem controle externo.
Impacto econômico e invisibilidade das vítimas
A presença do trabalho escravo em centros urbanos contradiz a ideia de modernização completa do mercado laboral. De um lado, a economia das grandes cidades depende da rapidez de obras e serviços; de outro, parte dessa agilidade é sustentada por mão de obra submetida a condições degradantes. O fenômeno se torna ainda mais invisível porque ocorre atrás de tapumes, dentro de oficinas clandestinas ou em prédios em construção.
Para especialistas, a informalidade urbana cria terreno fértil para aliciadores. Trabalhadores migram de estados com altas taxas de pobreza, chegam endividados e, ao fim, aceitam hospedagem precária, salários irregulares e retenção de documentos. Quando a fiscalização aparece, esses mesmos trabalhadores muitas vezes têm dificuldade de relatar os abusos, temendo retaliação ou deportação interna.
Cenários como esse reforçam a importância de políticas públicas voltadas à inserção produtiva. Capacitação profissional, oferta de creches e moradia digna são medidas que podem reduzir a necessidade de aceitar empregos suspeitos.
Esforços do governo e desafios à frente
Fiscalização intensificada em 2025
As 1.594 ações fiscais realizadas pelo MTE, em 2025, garantiram mais de R$ 9 milhões em verbas rescisórias aos resgatados. Além disso, mais de 48 mil trabalhadores tiveram direitos reconhecidos em inspeções onde não se configurou trabalho escravo, mas foram detectadas outras irregularidades. A estratégia combina inteligência de dados, denúncias anônimas e parcerias com Ministério Público do Trabalho e Polícia Federal.
Mesmo assim, o volume de denúncias supera a capacidade de resposta. Auditor-fiscal relata que ainda há carência de equipe para cobrir todo o território, sobretudo em estados extensos como Pará e Mato Grosso. Nas cidades, a pulverização dos focos exige investigações longas para rastrear empresas de fachada que terceirizam mão de obra ilegal.
Outro desafio é a reincidência. Mesmo após autuações, alguns empregadores voltam a contratar de forma irregular, confiando na morosidade judicial. Para frear essa prática, projetos em discussão no Congresso defendem aumentar multas e possibilitar expropriação de bens de quem explora trabalho análogo à escravidão.
A eliminação definitiva do trabalho escravo contemporâneo passa por articulação intersetorial. Combater a desigualdade racial, promover inclusão no mercado formal e assegurar educação de qualidade figuram no centro das prioridades. Enquanto isso, manter a fiscalização constante segue sendo o principal antídoto contra novas violações.


