O intervalo do Super Bowl 58 ganhou ares de cinema autoral quando Bad Bunny subiu ao palco, bandeira de Porto Rico em punho, e proclamou que “América” vai muito além dos Estados Unidos. Em poucos minutos, o artista costurou ritmo, geografia e política, listando quase todo o mapa latino-americano de maneira enfática.
O público vibrou, as redes sociais explodiram e o ex-presidente Donald Trump classificou a apresentação como “afronta à grandeza dos EUA”. Enquanto isso, professores brasileiros aproveitaram a deixa para reforçar em sala de aula o que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) já preconiza: a América é plural, diversa e atravessada por inúmeras identidades.
Impacto da performance de Bad Bunny no Super Bowl
Vestindo figurino que misturava referências caribenhas e urbanas, Bad Bunny conduziu a narrativa como um protagonista seguro, digno de prêmios de direção de atores. Cada país citado vinha acompanhado por projeções de bandeiras em telões gigantes, recurso visual que operou como roteiro didático ao vivo. Ao final, o estádio inteiro parecia ter assistido a uma rápida aula de História e Geografia.
O carisma do cantor facilitou a adesão instantânea da plateia. Em termos de atuação, ele soube alternar momentos de euforia dançante com pausas dramáticas, recurso cênico que reforçou o peso de frases como “Deus abençoe a América… toda a América”. Para quem estuda narrativa, fica claro que o rapper assumiu a figura de narrador-personagem, levando o espetáculo a um território que ultrapassa a simples execução musical.
Cadência, coreografia e mise-en-scène
A cadência da apresentação seguiu uma montagem quase cinematográfica. Começou em tom alto com batidas de reggaeton, baixou intensidade quando a lista de países surgiu e voltou a subir no encerramento, criando arco dramático nítido. A coreografia combinou passos de street dance com gestos de dança caribenha, alinhada à proposta de celebrar a mestiçagem latino-americana.
O telão central adotou estética de colagem digital, exibindo mapas e texturas que remetem às selvas amazônicas, aos Andes e às grandes paisagens urbanas. Esse jogo visual funcionou como trilha de apoio à narração, tornando o palco quase um personagem extra. Na prática, Bad Bunny apresentou uma “curta-metragem” ao vivo, onde cenário, luz e som conversavam para entregar mensagem única.
Já os figurinos, assinados por equipe que costuma vestir o cantor em turnês mundiais, serviram de código cromático. O verde-amarelo do Brasil, por exemplo, ganhava destaque quando o nome do país ecoava nos alto-falantes. Pequenos detalhes — como lenço vermelho no pulso, em lembrança aos movimentos sociais latino-americanos — davam camadas adicionais a quem observa além da superfície.
Direção artística e narrativa do espetáculo
A supervisão criativa ficou a cargo do veterano Ricky Kirshner, conhecido por grandes eventos televisivos, enquanto a roteirização da fala de Bad Bunny passou pelo crivo de uma equipe multicultural. O roteiro manteve a estrutura clássica de três atos: introdução energética, ponto de virada com a “lição” sobre as Américas e clímax musical que encerrou em alta.
Kirshner, ao lado de Hamish Hamilton — responsável pela direção das câmeras —, costurou planos fechados no rosto do cantor com panorâmicas do estádio. A escolha ajuda a conectar intimidade e grandiosidade, reforçando a tese central: cada indivíduo faz parte de um continente inteiro. O resultado lembra a gramática usada em filmes de grandes rave-parties, onde a euforia coletiva encontra foco em detalhes humanos.
Roteiristas e construção de discurso
Para além da música, houve redação cuidadosa das palavras. Fontes ligadas à produção afirmam que historiadores e sociólogos latino-americanos foram consultados, a fim de garantir rigor factual. O texto final buscava equilíbrio: direto o bastante para caber nos poucos minutos de intervalo, e profundo o suficiente para fisgar debates posteriores.
Essa preocupação se reflete na escolha do inglês para a primeira metade da declaração, seguida pela lista de países em espanhol e português. A alternância linguística serve como dispositivo dramático, marcando a virada de foco: do norte para o sul, do hegemônico para o periférico. Em outras palavras, o roteiro transformou uma simples saudação em manifesto.
O diretor de arte também inseriu referências simbólicas, como projeções de ramos de café quando se citava Colômbia e vinhedos estilizados ao mencionar Chile e Argentina. São detalhes que ampliam a experiência sem exigir explicação verbal, tática comum em roteiros visuais contemporâneos.
Repercussões educacionais e políticas
A repercussão não se limitou às arquibancadas. No Brasil, professores de História levaram o vídeo para o quadro digital na manhã seguinte. Eles exploraram o trecho em que Bad Bunny descreve o continente como espaço de “múltiplas histórias, identidades e relações de poder”, conceito alinhado à BNCC. O material se encaixou perfeitamente em aulas sobre construção de nações e diversidade cultural.
Especialistas em educação, como Paulo Rogério Andrade e Tarso Loureiro, apontam que a performance de Bad Bunny no Super Bowl fornece exemplo prático para discutir pertencimento e colonialismo. Ambos ressaltam que a escola deve reconhecer a América além de fronteiras políticas, analisando conflitos, exclusões e lutas de inclusão social ao longo dos séculos XIX e XX.
Impulso para debates de representatividade
A fala do cantor ainda reacendeu o debate sobre o uso do termo “americano” como sinônimo de cidadão dos Estados Unidos. Para o público brasileiro, a distinção costuma ser clara, mas a apresentação trouxe nova oportunidade de reflexão sobre linguagem e poder. Alunos, segundo relatos de educadores, passaram a questionar como a mídia e o mercado global naturalizam a confusão.
Do ponto de vista político, a reação de Trump — que chamou o show de “afronta” — apenas reforça a força simbólica do gesto. Quando o ex-presidente protesta, amplia a visibilidade da mensagem, fazendo com que o tema retorne às manchetes e alcance públicos que talvez não tivessem visto o espetáculo ao vivo.
Enquanto isso, no universo da cultura pop, a apresentação confirma a tendência de transformar eventos esportivos em palco de observações sociais. Beyoncé, Shakira e agora Bad Bunny mostram que o intervalo do Super Bowl é cada vez mais laboratório de comentários sobre raça, gênero e identidade.
Para o Salão do Livro, que acompanha interseções entre arte e educação, o episódio serve como case de estudo sobre narrativa performática. Ao costurar música, teatro visual e discurso político, Bad Bunny construiu uma história curta que dialoga diretamente com os mais jovens — público que forma novas bibliotecas de referência cultural nas redes.
Não por acaso, a performance de Bad Bunny no Super Bowl já aparece em playlists escolares e trilhas de estudos sobre América Latina. A mistura de ritmo popular, direção calculada e roteiro consciente mostrou que a palavra “América” pode — e deve — ser escrita no plural.


