Um novo relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) derruba a tese de que o Bolsa Família seria o vilão da empregabilidade feminina. O levantamento analisou a participação das mulheres na força de trabalho em 2026 e concluiu que o benefício não reduz o ímpeto de busca por vagas.
Os dados revelam, na verdade, um conjunto de barreiras estruturais — como jornada dupla de cuidados, diferença salarial e falta de creches — que mantêm grande parte das mães fora do emprego formal. A seguir, o Salão do Livro traz os principais números e destaca por que o debate sobre políticas públicas precisa ir além do valor depositado no Caixa Tem.
O que mostra a pesquisa do FMI
Publicada em 11 de fevereiro, a análise do FMI combinou microdados da PNAD Contínua, do IBGE, com estatísticas de programas sociais federais. Entre as 18,84 milhões de famílias atendidas pelo Bolsa Família, 84% são chefiadas por mulheres. Mesmo assim, a entidade não encontrou correlação negativa robusta entre o benefício e a procura por trabalho remunerado.
Segundo o relatório, a maioria utiliza a transferência de renda como complemento, não como substituto do salário. Com isso, o argumento de que o programa “desestimula” o emprego perde força técnica. Em vez disso, entram em cena fatores econômicos e sociais que restringem a oferta de mão de obra feminina.
Economia do cuidado e jornada dupla
A principal razão citada por 34,4% das entrevistadas para ficar em casa é a necessidade de cuidar de filhos, idosos ou afazeres domésticos. O FMI apontou que as brasileiras dedicam em média 9,8 horas semanais a mais a tarefas não remuneradas do que os homens, resultando em menos tempo disponível para atividades formais.
Essa diferença de carga horária, chamada de “economia do cuidado”, ainda não é compensada por políticas de licença parental ampla ou incentivo à corresponsabilidade masculina. A consequência é a perpetuação de um ciclo que impede o avanço da participação feminina no PIB.
Para analistas, a expansão de creches públicas e serviços de cuidado reduziria significativamente esse hiato, impulsionando o emprego e o rendimento familiar.
Desigualdade salarial e custo de trabalhar
Outro dado que chama atenção: mulheres recebem, em média, 22% menos que homens em funções equivalentes. Essa disparidade muitas vezes torna o custo de deslocamento, alimentação fora de casa e contratação de creche superior ao ganho líquido do trabalho.
Quando o salário não compensa, opções temporárias — como trabalhos informais, venda de produtos caseiros ou freelances — acabam surgindo como alternativas de flexibilidade. O estudo ressalta que a correção dessa lacuna salarial seria mais eficaz para elevar a participação feminina do que restringir a assistência social.
No mesmo sentido, medidas como a Lei da Igualdade Salarial podem se traduzir em ganhos reais de renda para as famílias chefiadas por mulheres.
Impacto econômico de maior inclusão feminina
O FMI calculou cenários de crescimento caso a distância entre as taxas de atividade de homens e mulheres seja reduzida pela metade até 2033. O resultado seria um salto de até 0,5 ponto percentual no PIB anual, reforçando que a inclusão feminina é vetor de desenvolvimento macroeconômico.
Para atingir essa meta, o organismo recomenda políticas de incentivo, como expansão de creches, revisão de licenças parentais e estímulo à corresponsabilidade masculina nos cuidados domésticos. O objetivo é liberar tempo para que mais mulheres busquem vagas formais sem sacrificar a renda familiar.
Rede de proteção vs. barreiras estruturais
Estudos recentes do Ipea e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) reforçam a conclusão do FMI. Mesmo após o reajuste que incluiu parcelas extras de R$ 150 por criança e R$ 50 por gestante, não houve transição significativa do emprego formal para o informal entre as beneficiárias.
Esses levantamentos identificam o Caixa Tem como ferramenta de proteção em períodos de instabilidade econômica, mas não como justificativa para abandono do mercado.
Assim, a transferência de renda permanece como rede de segurança enquanto não forem superados gargalos de infraestrutura social, transporte e formação profissional.
Recomendações para fortalecer a participação feminina
O FMI lista três frentes prioritárias de atuação governamental. A primeira é consolidar a Lei da Igualdade Salarial, garantindo fiscalização e penalidades efetivas. A segunda é ampliar a oferta de creches públicas, especialmente em regiões periféricas.
A terceira envolve ajustar as regras de licença parental, de forma a incentivar mais homens a compartilhar responsabilidades domésticas. Especialistas lembram que, sem a divisão equilibrada do cuidado, qualquer política de incentivo ao emprego feminino tende a produzir resultados tímidos.
Em resumo, o relatório afasta o mito de que o Bolsa Família desestimula a busca por trabalho. O desafio, segundo o FMI, está em remover barreiras históricas que limitam o potencial produtivo de milhões de mulheres brasileiras.


