A rotina na Escola Estadual Bairro Francisco Castilho, em Cravinhos, interior paulista, começou 2026 em clima de festa. Só nos primeiros dias do ano, a instituição recebeu a notícia de que 12 ex-alunos do ensino médio garantiram vagas em universidades estaduais, quatro deles no concorrido curso de medicina da USP de Ribeirão Preto.
Para a comunidade escolar, o feito vai além de notas altas. Ele confirma que a aposta em tutoria, análise de desempenho e acolhimento, estratégias que vêm sendo lapidadas desde o sexto ano do ensino fundamental, produz resultados concretos.
A celebração na Escola Francisco Castilho
Silvana Pesati, diretora da unidade, não conteve as lágrimas ao conferir a lista de aprovados. Segundo ela, trata-se do melhor resultado já registrado pela escola desde a sua fundação. “Quando a escola acredita no potencial dos estudantes, transforma sonho em realidade”, resume a gestora, que atua na rede pública há mais de duas décadas.
O orgulho estampado no rosto da equipe tem explicação: quatro vagas em medicina na USP, curso que costuma exigir as maiores pontuações dos vestibulares do país, foram preenchidas por ex-alunos da Castilho. Os demais ingressaram em áreas como psicologia, engenharia e ciências biológicas em outras instituições estaduais, incluindo Unesp e Unicamp.
Emoção na liderança escolar
Para Silvana, a aprovação de alunos em universidades públicas valida o esforço de profissionais que, muitas vezes, trabalham com recursos limitados. “Nossa escola é pública, mas isso não significa menor qualidade”, afirma. O sentimento foi compartilhado por professores que acompanharam a trajetória dos jovens desde os primeiros anos do ensino fundamental.
A diretora destaca que sucessos individuais funcionam como vitrine coletiva. Quanto mais estudantes cruzam os portões das universidades, maior é o entusiasmo das turmas seguintes. “Eles passam a acreditar que a USP não é um sonho distante e isso muda o clima do colégio”, completa.
A celebração também reverberou nas redes sociais mantidas pela escola, que publicaram fotos dos aprovados e mensagens de incentivo para quem está em fase de preparação.
Projeto de Vida impulsiona resultados
O bom desempenho não surgiu por acaso. Em 2022, quando a disciplina Projeto de Vida passou a integrar a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o ensino médio, a Francisco Castilho decidiu antecipar a proposta. A matéria começou a ser trabalhada já na sexta série e serviu de bússola para os jovens identificarem habilidades, metas e possíveis carreiras.
Estéfani Barbosa da Silva, professora responsável pela disciplina, conta que a imersão precoce em reflexões sobre futuro mudou a mentalidade dos alunos. “Apresentamos profissões, mostramos cursos, levamos ex-alunos que hoje estudam em universidades públicas. Isso amplia horizontes”, explica.
Tutoria e independência nos estudos
Outro pilar do programa é a tutoria semanal. Nessas sessões, educadores acompanham o rendimento dos estudantes, sugerem estratégias personalizadas e estimulam a autonomia. João Vitor Souza dos Santos, 18 anos, um dos quatro aprovados em medicina, credita boa parte do sucesso a esse acompanhamento. “Desde cedo fui orientado a estruturar meu plano de estudos e a ajustar a rota quando necessário”, diz.
Leonardo de Abreu Ribeiro, 17, também futuro calouro de medicina na USP, destaca o hábito de estudar fora da sala como diferencial competitivo. “Os professores sempre lembravam que, na faculdade, ninguém pega na nossa mão. Criar disciplina antes facilita a transição”, comenta.
Para alunos que enfrentavam insegurança sobre cursos considerados “elitizados”, como medicina, o incentivo cotidiano foi crucial. A recém-aprovada Monique de Oliveira Silva relata que só se permitiu sonhar depois de ouvir repetidamente dos docentes que era possível.
Provão Paulista: porta de entrada exigente
Todas as conquistas passaram pelo Provão Paulista, exame seriado criado em 2023 que reserva vagas nas universidades públicas estaduais a estudantes de escolas da rede. Diferentemente de vestibulares tradicionais, o modelo avalia o desempenho ao longo dos três anos do ensino médio, diluindo a pressão do “dia decisivo”.
Ainda assim, o processo não perde em rigor. A Universidade de São Paulo destinou 1,5 mil lugares — apenas 14 deles para medicina em Ribeirão Preto. Valdes Roberto Bolella, presidente da Comissão de Graduação da Faculdade de Medicina local, reforça que a disputa é acirrada. “Não é mais fácil; é apenas um caminho dedicado aos alunos da rede pública”, alerta.
Desafio de democratizar o acesso
O Provão Paulista nasceu com a missão de democratizar o ingresso, mas a barreira psicológica permanece. Muitos jovens da rede estadual não se veem, à primeira vista, dentro de uma sala da USP. Resultados como os de Cravinhos, portanto, funcionam como farol para municípios vizinhos e até de outras regiões do estado.
A relevância do desempenho também ecoa além dos muros escolares. Para os familiares de Ana Julia da Silva Crepaldi, aprovada em psicologia na Unesp de Bauru, o ingresso em uma universidade pública representa ascensão social inédita. “Sou a primeira da família a conquistar esse feito”, celebra a estudante.
No Salão do Livro, espaço que costuma destacar conquistas educacionais, exemplos como esses reforçam a potência da escola pública quando há projeto pedagógico claro, acompanhamento individualizado e crença no potencial de cada aluno.
Comemorando 12 aprovações em tempo recorde, a Escola Estadual Bairro Francisco Castilho encerra o verão com a confiança renovada. A meta, agora, é ampliar a rede de apoio para que as próximas turmas ultrapassem o marco de 2026 e levem o nome de Cravinhos ainda mais longe no mapa do ensino superior paulista.


