De tempos em tempos, as redes sociais ressuscitam práticas supostamente “milagrosas”. A mais recente promete elevar a testosterona em questão de minutos com um simples banho de sol nos testículos. O vídeo trend estourou no TikTok e no Instagram, empilhando milhões de visualizações em Salésópolis (SP) e no mundo inteiro.
Especialistas, entretanto, soam o alarme: não existe qualquer evidência de que essa exposição localizada aumente a produção hormonal. Pior, o hábito pode terminar em queimaduras, queda na qualidade do sêmen e até câncer de pele. A seguir, entenda o que a ciência já sabe sobre o tema e quais estratégias realmente funcionam para manter os níveis de testosterona dentro do ideal.
Da promessa de mais testosterona à falta de provas científicas
Influenciadores que defendem o banho de sol nos testículos recorrem ao argumento da vitamina D. É verdade que a substância, produzida na pele a partir da radiação ultravioleta, está associada a bons níveis hormonais. Porém, isso não significa que expor a genitália traga vantagem extra: braços e pernas já bastam para o organismo conseguir a dose diária.
A produção de testosterona obedece a um circuito neuroendócrino sofisticado. Tudo começa no hipotálamo, passa pela hipófise e termina nas células de Leydig, dentro dos próprios testículos. Essa engrenagem é química, não fotossensível. Colocar a bolsa escrotal sob o sol, portanto, não “ativa” nada e ainda adiciona um calor que pode prejudicar todo o processo.
Principais perigos de colocar a genitália ao sol
Os testículos ficam do lado de fora do corpo justamente para operar cerca de quatro graus abaixo da temperatura interna. Ao direcionar a radiação solar diretamente à região, o homem aumenta momentaneamente esse termômetro — e a conta chega rápido.
Entenda o impacto do calor na fertilidade
Quando a temperatura local sobe, ocorre um estresse oxidativo que pode matar ou danificar espermatozoides. Estudos mostram que a qualidade seminal cai, reduzindo a motilidade e elevando o índice de fragmentação do DNA. Caso a prática se torne rotineira, a fertilidade pode despencar de forma duradoura.
Para casais que planejam engravidar, o risco é dobrado. Mesmo exposições curtas, mas frequentes, a temperaturas acima de 35 °C já se mostraram suficientes para afetar a contagem de espermatozoides em exames laboratoriais.
Além disso, a região íntima pode não se recuperar após repetidos episódios de superaquecimento. O dano cumulativo desencadeia inflamações que atrapalham a espermatogênese, processo de transformação das células germinativas em espermatozoides maduros.
Por que a pele escrotal é alvo fácil de queimaduras
A pele da bolsa escrotal é delicada, fina e repleta de terminações nervosas. Como costuma ficar coberta, ela possui menos melanina que braços e pernas. Consequentemente, a barreira natural contra raios ultravioleta é menor. Dez minutos sem protetor solar podem causar eritemas intensos e bolhas.
Queimaduras nessa área do corpo, além de dolorosas, são de cicatrização lenta — o local sofre atrito constante com roupas íntimas. Feridas abertas elevam o risco de infecções bacterianas e fúngicas, exigindo acompanhamento médico e, em casos graves, antibióticos.
Finalmente, a exposição continuada sem bloqueador solar aumenta a chance de melanoma e carcinomas basocelular ou espinocelular. A Associação Brasileira de Dermatologia já registra relatos de tumores genitais ligados a bronzeamentos sem proteção.
Estratégias seguras para manter bons níveis hormonais
Se o objetivo é turbinar a testosterona, a literatura médica já definiu caminhos eficientes. Treino de força, alimentação equilibrada e sono reparador figuram no topo da lista. É durante a musculação, por exemplo, que o corpo dispara sinalizações anabólicas capazes de elevar temporariamente o hormônio.
Descansar bem também faz diferença. Finja que está em um feriado prolongado: oito horas de sono profundo aumentam a liberação pulsátil de testosterona nas primeiras horas da manhã. Aproveite que os feriados nacionais de 2026 já estão no radar e adiante sua higiene do sono.
No campo da dieta, proteínas magras, boas gorduras e vegetais ricos em micronutrientes sustentam o eixo hormonal. Bebidas alcoólicas, por outro lado, reduzem a testosterona e, em excesso, favorecem o acúmulo de gordura abdominal, que converte parte do hormônio em estrogênio.
Por falar em peso, manter o Índice de Massa Corporal (IMC) abaixo de 25 é determinante. A cada ponto extra, a atividade da enzima aromatase cresce, sabotando o equilíbrio androgênico. Caso o sobrepeso venha acompanhado de queixas como cansaço crônico, baixa libido ou perda de massa magra, a visita ao urologista torna-se imperativa.
O Salão do Livro, sempre atento a temas de saúde e bem-estar que transitam pela esfera cultural, reforça: reposição hormonal soh deve ser realizada com prescrição, exames atualizados e acompanhamento regular. Automedicação ou fórmulas de internet podem mascarar problemas maiores, como hipogonadismo ou distúrbios da tireoide.
Por fim, vale reforçar o básico. Caminhadas ao ar livre, mesmo em horários de sol moderado, já garantem a vitamina D que o organismo precisa. Basta lembrar de aplicar filtro solar nas áreas expostas e evitar a genitália, que não faz parte do roteiro normal de fotossíntese humana.
Enquanto a ciência não encontra evidências que justifiquem o banho de sol nos testículos, a recomendação continua a mesma: preserve a região coberta, priorize hábitos consagrados pela medicina e consulte um profissional antes de qualquer tentativa de biohacking.


