Vídeos de adolescentes uivando, usando caudas de lobo ou miando em corredores escolares têm lotado o feed de muita gente. A cena é curiosa, mas por trás dela existe um movimento crescente, o chamado fenômeno therian, que envolve identificação psicológica com animais.
No Salão do Livro, leitores pediram uma análise clara sobre o tema, sem alarmismo. A seguir, destrinchamos o que significa ser therian, por que isso ganhou força e como pais e avós podem reagir de forma equilibrada.
O que define um therian
Ser therian não implica acreditar, literalmente, na transformação física em lobo, gato ou raposa. A principal característica é o sentimento interno de afinidade com determinado animal, algo descrito por quem vivencia a experiência como uma identidade psicológica ou espiritual. Esse vínculo pode se manifestar em:
- Uso de acessórios que lembrem o animal escolhido, como orelhas, caudas ou garras de brinquedo;
- Expressões corporais inspiradas em atitudes do bicho, do caminhar mais “felino” a gestos de “farejar” o ambiente;
- Relatos de que a personalidade do animal traduz a maneira como o jovem sente o mundo.
O conceito surgiu em fóruns online durante os anos 1990, mas só alcançou grande público com o impulsionamento de redes sociais visuais, caso do TikTok. Hoje, conteúdo rotulado como therian soma milhões de visualizações diárias, o que alimenta a curiosidade de quem nunca ouvira falar no assunto.
Por que o fenômeno ganhou força nas redes sociais
Duas engrenagens se combinam. Primeiro, a fase da adolescência é marcada pela busca de identidade, experimentação e necessidade de pertencer a um grupo. Segundo, plataformas digitais fornecem palco e plateia quase infinitos, onde qualquer nicho encontra pares em poucos cliques.
Assim, quando um vídeo curto mostra alguém “rugindo” na sala de aula e recebe milhares de curtidas, outro adolescente que sente afinidade por felinos percebe não estar sozinho. A visibilidade retroalimenta o movimento e cria uma comunidade global capaz de trocar dicas de fantasias, terminologias e relatos pessoais.
É também nas redes que circulam boatos sobre eventuais riscos ou proibições envolvendo therians, nem sempre baseados em fontes confiáveis. Por isso, entender o contexto ajuda a diferenciar exageros virais de fatos.
Sinais comuns em casa ou na escola
Ao observar o cotidiano, familiares podem notar comportamentos que indicam essa exploração de identidade:
1. Acessórios de animal: o jovem começa a usar orelhas de gato em festas ou coloca uma cauda de raposa presa ao cinto na escola. É um símbolo externo de algo interno.
2. Vocabulário próprio: frases como “meu lado lobo” ou “minha forma felina” aparecem em conversas informais ou publicações online.
3. Comunidades virtuais: participação ativa em grupos que discutem nomes de “codenomes” (nome de animal adotado), etiqueta de convenções e dicas de artesanato para fantasias.
Quando acender o sinal de alerta
Especialistas em desenvolvimento adolescente apontam que a fase de experimentação, por si só, não costuma representar perigo. O ponto de atenção surge se a nova identidade vier acompanhada de:
1. Isolamento social acentuado: deserção de amigos antigos e recusa em criar novos laços presenciais.
2. Queda brusca de desempenho escolar ou abandono de atividades antes prazerosas, como esportes ou artes.
3. Sofrimento emocional visível: crises de ansiedade, tristeza constante ou fala autodepreciativa.
Nessas circunstâncias, vale procurar ajuda profissional, seja com psicólogos escolares ou especialistas em saúde mental infantojuvenil.
Como dialogar sem transformar a questão em conflito
Pais e avós costumam ter dúvidas imediatas: “É só uma moda?”, “Devo impedir que leve máscara para a aula?”. A recomendação de psicopedagogos converge em manter conversa aberta e sem julgamento. Perguntar o que atrai naquele animal ou como o jovem se sente ao usar o acessório já abre espaço para confiança.
Caso a escola imponha regras sobre fantasias em sala, procure negociar com a direção e buscar alternativas. Em muitas instituições, acessórios são permitidos fora do horário de prova ou apresentação, equilibrando individualidade e disciplina.
Vale lembrar que rituais de passagem e personagens imaginários sempre acompanharam a juventude. O fenômeno therian apenas ganhou contornos mais visíveis na era digital.
Próximos passos: acompanhamento e apoio
Depois de estabelecer diálogo, acompanhe o bem-estar geral. Incentivar a prática de hobbies offline, convivência familiar e atividades físicas ajuda a manter a rotina saudável. Se surgirem interesses conexos, como desenho de animais ou leitura sobre biologia, estimule: pode ser caminho produtivo para canalizar a afinidade.
Também é possível propor participação em eventos culturais ou clubes de estudo, evitando que toda a sociabilidade fique restrita ao ambiente virtual. Para quem prepara calendários familiares, lembretes de compromissos, como o pagamento do IPVA, podem entrar na conversa de forma natural, mostrando que cada membro se engaja em assuntos diversos do cotidiano.
Identidade em evolução
Importante destacar que muitos adolescentes abandonam ou transformam a identidade therian com o tempo. O processo se assemelha a outras fases de autoconhecimento, como preferir um estilo musical ou mudar a cor do cabelo.
Se não houver prejuízo às responsabilidades diárias nem sofrimento mental, permitir a expressão pode fortalecer a autoestima. O jovem aprende que existe espaço para ser escutado e, em troca, ganha maturidade para lidar com opiniões divergentes.
No fim das contas, a presença de máscaras ou caudas em casa pode render boas conversas sobre pertencimento, limites e criatividade. Ao observar com atenção e manter o afeto como base, família e escola atravessam juntos mais essa faceta da cultura digital contemporânea.


