Sem trocar o ponteiro ou precisar programar o despertador, o brasileiro iniciará 2026 praticamente da mesma forma que terminou 2025. O governo federal decidiu manter a suspensão do horário de verão, política adotada desde 2019. Para quem já se acostumou com a luz natural se estendendo até o início da noite nos antigos meses de vigência, a notícia confirma que nada muda no próximo ciclo.
A decisão se baseia em laudos técnicos do Ministério de Minas e Energia (MME) e do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Ambos apontam que, com o atual perfil de consumo — dominado por ar-condicionado, home office e operações 24 h — a economia de energia obtida com o ajuste nos relógios praticamente desapareceu. O Salão do Livro acompanha o tema de perto e resume, a seguir, tudo o que realmente importa.
Por que o horário de verão 2026 continua fora de pauta
O horário de verão vigorou de forma intermitente no Brasil por mais de sete décadas. Criado para deslocar o pico de demanda elétrica e economizar energia nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste, o dispositivo perdeu relevância na última década. De acordo com o MME, as diferenças entre carga máxima e mínima estão hoje distribuídas em outras faixas horárias, transformando a mudança de relógio em recurso ineficaz.
Quando comparados aos números da década de 1990, os ganhos que antes superavam 4% no consumo dos horários de ponta, agora mal chegam a 0,5%. Esse porcentual não compensa a complexidade logística de alterar calendários escolares, aparelhos eletrônicos e sistemas bancários. Por isso, a pasta optou por reiterar a suspensão iniciada há cinco anos.
Análises do setor elétrico
Os estudos técnicos citam três fatores decisivos. O primeiro é a popularização do ar-condicionado, cujas unidades seguem ligadas durante o calor da tarde, estendendo o pico de demanda para além do entardecer. O segundo envolve o avanço do trabalho remoto, que mantém computadores e iluminação residencial ativos ao longo do dia inteiro. Por fim, serviços essenciais, como centros de processamento de dados, já não reduzem atividades à noite.
Somada, essa nova lógica de consumo provoca picos de energia em horários variados, diluindo o impacto que o horário de verão conseguia suavizar. Segundo o ONS, a curva de carga já não se comporta como no passado, quando a “rampa” das 18 h disparava o uso de termelétricas.
O custo-benefício, portanto, virou. Manter o relógio inalterado evita transtornos no transporte, na sincronização de sistemas eletrônicos e em compromissos internacionais, sem sacrificar a segurança do sistema elétrico.
Estados que ficariam sob a mudança e o que muda sem ela
Caso a medida fosse retomada em 2026, onze unidades da Federação precisariam adiantar os ponteiros em uma hora: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Juntas, essas regiões concentram grande parte da malha industrial e dos centros financeiros do país.
Na prática, a não aplicação significa que nenhuma dessas localidades terá qualquer transição abrupta de luz natural. Restaurantes, academias e parques, que em anos passados se beneficiavam do sol extra ao fim da tarde, manterão horários convencionais. Empresas de transporte aéreo, que dependem de malha de voos interligada, também evitam remarcações complexas.
Possíveis cenários futuros
Embora o governo tenha descartado o horário de verão para 2026, a discussão segue viva no setor energético. Mudanças climáticas, elasticidade da demanda e oscilações na matriz de geração podem reacender o debate. Por ora, o Ministério de Minas e Energia se comprometeu a reavaliar a situação apenas se houver “alteração expressiva” no consumo nacional.
Outros temas energéticos têm ocupado a agenda oficial, como o Projeto de Lei 310/2026, que propõe zerar a taxa de licenciamento digital e pode influenciar a modernização de processos no setor automotivo. Medidas assim mostram que o foco do governo está mais voltado a eficiência tecnológica do que ao antigo ajuste de horário.
Ainda assim, especialistas lembram que nenhum dispositivo legal impede o retorno do horário de verão. O que existe é uma decisão administrativa, passível de revisão a cada novo estudo técnico ou mudança de contexto econômico.
Rotina de trabalho, estudo e serviços sem adiantamento de ponteiros
Sem precisar acordar mais cedo em outubro para “ganhar” luz ao fim da tarde, trabalhadores permanecem com horários lineares. Sistemas de ponto eletrônico não exigirão reconfiguração, e escolas evitam ajustes em rotas de transporte escolar. Para empresas de tecnologia, a estabilidade previne falhas de autenticação causadas por divergência de fuso.
No mundo corporativo, a manutenção do relógio impacta diretamente equipes que operam em fusos distintos. Com a não mudança, reuniões internacionais marcadas com parceiros na Europa ou nos Estados Unidos não sofrem alterações repentinas de agenda, reduzindo ruídos de comunicação. Plataformas digitais, que já enfrentam sobrecarga em datas de pagamentos, também agradecem.
Efeitos colaterais eliminados
Pesquisas sobre qualidade do sono indicam que pelo menos uma semana é necessária para o organismo se readaptar ao horário de verão. A sua ausência elimina esse período de ajuste biológico, evitando queda de produtividade e irritabilidade em escritórios. Além disso, tarefas rotineiras — como atualizar relógios de prédios, aparelhos analógicos e sistemas de segurança — são completamente dispensadas.
O comércio, que costumava adequar vitrines e campanhas a fim de atrair consumidores no horário estendido, manterá estratégias baseadas nos ciclos normais de compra. Já o setor de turismo observa impacto neutro: atrações diurnas organizam visitas pela disponibilidade de sol, mas passeios noturnos mantêm demanda constante.
Mesmo sem horário de verão, o governo continua atento a políticas de renda que aliviam o orçamento das famílias, como o Bolsa Família 2026. Ao lado de ajustes fiscais, essas medidas visam garantir que o consumo permaneça aquecido, independentemente de mudanças nos ponteiros.
Por ora, portanto, as engrenagens continuam girando no compasso tradicional. Seja no território nacional ou em negociações globais, 2026 começa sem a clássica pergunta: “Você já adiantou o relógio?”


