As notas de corte do Sisu 2026 chegaram a picos inesperados nesta segunda-feira (23), último dia de inscrições. O motivo, segundo relatos de estudantes, é a participação de veteranos que já cursam o ensino superior e registram notas antigas do Enem apenas para bagunçar o processo.
O Salão do Livro apurou que a prática provoca um efeito cascata: candidatos reais mudam de opção de curso, acreditando que a pontuação mínima subiu, e ficam sem referência confiável para decidir aonde concorrer. A seguir, veja como esse cenário se formou e quais podem ser as consequências.
Pressão artificial nas notas de corte do Sisu
Pela primeira vez, o Inep permitiu o uso das notas do Enem 2023, 2024 e 2025 no Sisu 2026. Essa mudança ampliou o universo de participantes e abriu brecha para que alunos já matriculados usem pontuações antigas para inflar as notas de corte do Sisu.
Com mais gente habilitada, o sistema calcula as médias parciais com dados de concorrentes que, na prática, não pretendem efetivar a matrícula. O resultado é um retrato distorcido da disputa – em alguns cursos, a nota provisória ficou até 50 pontos acima da realidade observada em anos anteriores.
Veteranos que ‘seguram’ vaga para amigos
A primeira tática identificada envolve estudantes veteranos que “reservam” cadeiras para conhecidos. Eles inscrevem suas notas altas no curso desejado pelo amigo, elevando a marca mínima necessária. Pouco antes do fechamento do sistema, retiram a inscrição fake, liberando a vaga.
Essa manobra faz com que muitos concorrentes desistam antes da hora, convencidos de que não alcançarão a pontuação necessária. Ao saírem da fila, deixam o caminho livre para o beneficiário do esquema, que entra com índice menor do que o divulgado durante a semana.
Embora não infrinja regras do edital, a estratégia cria insegurança e favorece um jogo desigual, concentrado entre grupos que já possuem informação privilegiada ou rede de contatos forte dentro das universidades.
A busca por aprovações para exibir nas redes
Outra motivação é meramente estética: “colecionar” aprovações. Alunos que não pretendem largar o curso atual entram no Sisu por vaidade acadêmica, esperando ver o nome na lista de primeira chamada para depois publicar prints comemorativos.
Nesse caso, o dano é duplo. Primeiro, a presença desses perfis eleva as notas de corte do Sisu, desorientando concorrentes legítimos. Depois, quando a matrícula não é confirmada, a vaga retorna ao sistema e gera demora na convocação de quem realmente precisa começar as aulas desde o primeiro dia letivo.
Para universidades e calouros, o efeito dominó significa salas vazias no início do semestre e necessidade de recuperar conteúdo. Já para quem fez a inscrição de boa-fé, resta a frustração de ter perdido semanas aguardando a lista de espera andar.
Impacto nos candidatos que buscam a primeira graduação
Sem acesso a dados consolidados, quem disputa a primeira vaga no ensino superior navega num mar de incertezas. Muitos relatam ter trocado de curso três ou quatro vezes na tentativa de encontrar uma nota coerente com o próprio desempenho, mas essa referência se dissolveu diante da enxurrada de inscrições fake.
A instabilidade emocional é outra consequência. Candidatos recém-saídos do ensino médio já lidam com pressão familiar, ansiedade e custo de transporte para realizar provas. Quando as notas de corte do Sisu se tornam miragens, a sensação de injustiça tende a minar a confiança no processo seletivo governamental.
Possíveis ajustes no sistema a partir de 2027
Até a publicação desta reportagem, o Inep não havia sinalizado mudanças oficiais para o Sisu 2027. Nos bastidores, no entanto, ganha força a possibilidade de restringir novamente o uso das pontuações apenas à edição mais recente do Enem, como forma de reduzir fraudes e estabilizar as notas de corte do Sisu.
Especialistas em políticas públicas observam que a volta ao modelo anterior simplificaria o cálculo das notas parciais e diminuiria a tentação de inscrições oportunistas. Por outro lado, candidatos que fazem o Enem mais de uma vez perderiam a chance de aproveitar a melhor pontuação entre diferentes anos.
Também há quem defenda a implementação de penalidades administrativas para quem for aprovado e não comparecer à matrícula sem justificativa plausível. A medida serviria de freio para o hábito de “colecionar prints” de aprovação, mas carece de debate jurídico sobre aplicação e proporcionalidade de sanções.
Enquanto não se anuncia uma solução definitiva, a recomendação de professores e coordenadores de cursinho é simples: acompanhe as notas parciais, mas mantenha o foco no próprio desempenho e verifique a real concorrência apenas após a divulgação da chamada final. Dessa forma, o estudante evita decisões precipitadas baseadas em pontuações que podem evaporar minutos antes do prazo final.


