Janeiro começou com a inflação em marcha lenta, mas ainda firme. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) avançou 0,33%, levando o acumulado em 12 meses a 4,44%, segundo o IBGE.
Embora o resultado esteja dentro da meta do Banco Central, ele deixa o orçamento das famílias mais curto. Combustíveis e alimentos seguiram como vilões, enquanto a conta de luz forneceu alívio pontual. O Salão do Livro, atento à realidade dos leitores que conciliam investimentos em cultura com despesas essenciais, detalha a composição dessa alta.
Gasolina puxa a alta do IPCA em janeiro
O grupo Transportes respondeu pela maior fatia da inflação do mês. O reajuste do ICMS sobre os combustíveis, que entrou em vigor logo no primeiro dia do ano, fez o preço da gasolina subir 2,06%. Esse aumento isolado foi suficiente para adicionar 0,10 ponto percentual ao índice geral.
Para quem depende do carro diariamente, o impacto foi imediato. Além da gasolina, o etanol avançou 3,44%, corroendo a estratégia de muitos motoristas de alternar combustíveis em busca de economia. A pressão acontece justamente no momento em que a taxa Selic recua de forma gradual ― movimento que, de acordo com o ministro das Cidades, não tem turbinado os juros do programa habitacional Minha Casa Minha Vida (conforme ele declarou).
Efeito do ICMS sobre os combustíveis
O aumento do ICMS não só elevou os preços na bomba como também gerou efeito cascata em toda a cadeia logística. Transportadoras repassam parte do custo extra para mercadorias, o que mexe com o preço final de inúmeros produtos, dos livros aos gêneros alimentícios.
Outro dado chama atenção: mesmo com a gasolina mais cara, as passagens aéreas recuaram 8,90% após os picos de alta em dezembro. O benefício, porém, atinge parcela menor da população, pois o deslocamento por carro particular segue majoritário. Já o transporte por aplicativo caiu 17,23%, reflexo de promoções pós-festas de fim de ano.
Nesse cenário, o consumidor se vê obrigado a reavaliar rotas e repensar hábitos. Alternativas como transporte público ou caronas podem ganhar força, mas não anulam o impacto direto do combustível no IPCA.
Alimentação sente impacto do tomate, mas leite recua
Alimentos e Bebidas mostraram duas faces. Itens básicos, caso do leite longa vida (–5,59%) e do ovo de galinha (–4,48%), aliviaram a despensa. Porém, a disparada do tomate, que encareceu 20,52% em apenas um mês, roubou parte desse respiro.
A volatilidade do tomate explica-se por fatores sazonais: chuvas em regiões produtoras e aumento na demanda de restaurantes durante as férias. O resultado é uma feira mais pesada para quem busca fibras e vitaminas no prato.
Carnes mantêm pressão sobre orçamento
Ainda na alimentação, as carnes subiram 0,84% em média. Cortes considerados nobres, como contrafilé (1,86%) e alcatra (1,61%), lideraram a alta. Quem trocou o churrasco por refeições prontas fora de casa não escapou totalmente: o prato feito subiu 0,66%, embora o lanche quase tenha ficado estável (0,27%).
O quadro mostra que, mesmo com a coleta de preços indicando algum alívio em itens pontuais, a cesta básica continua pressionada. E o consumo de proteína animal volta a ser um ponto sensível, especialmente para famílias de menor renda.
Parte dos trabalhadores conta com rendimentos extras, como o abono salarial PIS/Pasep, para equilibrar as contas. Aplicativos oficiais, por exemplo, facilitam a consulta ao benefício (via Carteira de Trabalho Digital), mas nem sempre o dinheiro chega a tempo de compensar a inflação nos alimentos.
Conta de luz ajuda a segurar avanço da inflação
Sem a queda de 2,73% na energia elétrica, o IPCA de janeiro teria sido mais salgado. A redução reflete a adoção da bandeira verde, que zera a cobrança adicional na conta de luz. Para muitos consumidores, sobretudo aqueles que dependem de ventiladores ou ar-condicionado em pleno verão, essa foi a melhor notícia do mês.
A mudança tarifária demonstra como decisões regulatórias impactam diretamente a inflação. Quando a conta de luz fica mais barata, sobra espaço no orçamento para outras despesas, inclusive culturais. É oportunidade para investir em um bom livro ou na matrícula de um curso de atualização, áreas que fazem parte do universo do Salão do Livro.
Embora positiva, a queda da energia ainda não garante tranquilidade. Despesas inevitáveis, como produtos de higiene pessoal (1,20%), continuam avançando. Além disso, incertezas fiscais e climáticas podem reverter o cenário já nos próximos meses.
O retrato de janeiro mostra, portanto, uma economia que caminha sob forças opostas: combustíveis e alguns alimentos pressionam a inflação, enquanto energia elétrica e passagens aéreas atuam como freio. Consumidores seguem atentos, calculadora em mãos, na esperança de que os próximos boletos tragam menos surpresa.


