Voltar à sala de aula depois da primeira graduação parecia arriscado. Ainda assim, dois paulistanos decidiram recomeçar os estudos e surpreenderam na última edição do Enem: ambos ultrapassaram a barreira dos 900 pontos em matemática e na redação.
Heitor Gonçalves da Silva, 24 anos, e Angélica Kaori Hirata, 22, viram o esforço virar quase nota máxima e agora descrevem o passo a passo que adotaram para driblar a pressão do tempo, explorar repertório cultural e manter a saúde mental em dia.
Retomada dos livros após a formatura
Formado em Engenharia Bioquímica pela Universidade de São Paulo, Heitor queria migrar para Psicologia, também na USP. O obstáculo inicial foi encarar conteúdos de ensino médio que ele não via há anos, especialmente História, Geografia e Biologia. “Parecia a primeira vez que eu lia certas páginas”, confidenciou.
Para acelerar a revisão, ele se matriculou em um curso on-line do Anglo Play, assistindo às aulas matinais de segunda a sábado. À tarde, atacava listas extras focadas nos pontos fracos. Aos domingos, encarava simulados completos, prática que o ajudou a calibrar o relógio interno para o formato extenso do exame.
Gerenciamento de tempo como diferencial
A nota de 959,5 em matemática e 920 na redação não veio apenas do domínio teórico. Heitor credita boa parte do resultado à gestão do tempo durante a prova. Ele estruturou a resolução das questões em blocos, alternando áreas para evitar desgaste mental — sobretudo no segundo dia, quando Ciências da Natureza divide espaço com a temida matemática.
Outra tática foi tratar as perguntas fáceis como prioridade, respeitando a Teoria de Resposta ao Item (TRI), que valoriza acertos consistentes. “Pular questão difícil não é pecado”, resume. Já para a redação, o ex-engenheiro evitou modelos prontos e apostou na própria bagagem cultural: filmes favoritos, séries e livros se tornaram argumento de peso no texto dissertativo-argumentativo.
Ele ainda teve auxílio da namorada, Laura, que revisava cada rascunho. Essa troca informal, segundo Heitor, foi crucial para ganhar clareza e ritmo de escrita.
De três graduações tentadas à certeza pela arquitetura
Se Heitor trocou a engenharia pela psicologia, Angélica percorreu caminho ainda mais sinuoso. Antes de definir arquitetura como destino final, passou por Produção Multimídia, Terapia Ocupacional e Análise e Desenvolvimento de Sistemas. A constante sensação de não pertencer a nenhum curso a fez adiar o sonho da universidade ideal.
Em maio do ano passado, ela percebeu que estudar sozinha não rendia. Voltou ao cursinho presencial do Anglo, atraída pelo custo-benefício e pela memória positiva de tentativas anteriores. Mesmo assim, o receio de ser “a mais velha da turma” manteve a ansiedade alta nas primeiras semanas.
Treino pesado na redação
Os números mostram que o planejamento deu resultado: 960 na redação e 959,3 em matemática. Para chegar lá, Angélica escreveu várias propostas por semana, sempre dentro dos eixos temáticos sugeridos pelos professores. “O segredo é não temer o tema surpresa”, diz. Quanto mais exercitava repertórios distintos — de políticas públicas a questões ambientais —, maior ficava a confiança.
Refazer provas antigas também virou ritual. Segundo a candidata, explorar enunciados de edições passadas revela padrões de pegadinhas e vocabulário recorrente. Isso permite calibrar a interpretação de texto e evitar deslizes de cálculo na haste do gabarito.
Diferentemente das experiências anteriores, desta vez ela priorizou descanso. Dormir bem, inserir pausas ativas e preservar fines de semana ocasionalmente livres mantiveram a motivação em alta até a véspera da prova.
O que funciona para alcançar nota acima de 900
Embora cada um tenha seguido trajeto próprio, alguns pontos se repetem nas rotinas de Heitor e Angélica. O primeiro é a constância: aulas regulares, listas de exercícios e simulados frequentes. O segundo é a personalização do estudo — ambos adaptaram o cronograma para enfrentar pontos fracos sem perder o prazer de aprender.
Para quem busca resultado semelhante, eles sugerem começar a redação logo após ler o caderno de provas, ainda que seja apenas para rascunhar ideias. Assim, o cérebro trabalha no tema enquanto resolve as questões objetivas. Outra dica é enxergar filmes, músicas e séries como referências válidas, atitude que cabe bem ao público do Salão do Livro, acostumado a extrair argumentos da cultura pop tanto quanto dos clássicos.
Checklist de preparação
• Mantenha rotina fixa, mas flexível para imprevistos.
• Intercale matérias para evitar fadiga cognitiva.
• Refazer provas antigas ajuda a identificar padrões.
• Use repertório cultural pessoal na redação, não frases feitas.
• Garanta intervalos de descanso para preservar a saúde mental.
Com o resultado em mãos, Heitor já monitora a nota de corte de Psicologia e Angélica observa o painel de arquitetura na USP pelo Sisu. Ambos se dizem confiantes, mas mantêm os pés no chão até a matrícula. Enquanto aguardam, celebram a prova de que recomeçar, mesmo depois de uma graduação, pode render quase nota máxima.


