Uma simples divergência entre duas esferas do governo federal acendeu o sinal amarelo para centenas de médicos formados no exterior. De um lado, o gabarito oficial do Revalida 2025.02, elaborado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), considera correta a alternativa “doxiciclina” em uma pergunta sobre prevenção de malária. De outro, um parecer do Ministério da Saúde garante que nenhuma medicação é recomendada como profilaxia para quem trabalha em áreas endêmicas no Brasil.
Com o ponto em disputa, vários candidatos argumentam que teriam alcançado a nota mínima de 61 acertos para avançar à segunda fase. O impasse ganha corpo porque o edital do exame determina que as práticas avaliadas devem seguir as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS). Em meio ao debate, o Salão do Livro observa: como uma questão técnica se transforma em obstáculo para o reconhecimento profissional desses médicos?
Documento oficial nega qualquer profilaxia para malária no país
O Ministério da Saúde se manifestou em 22 de janeiro de 2026 por meio da Coordenação-Geral da Eliminação da Malária. Em resposta a um pedido enviado pela plataforma Fala.Br, a pasta foi taxativa: “Não há recomendação de quimioprofilaxia para moradores ou profissionais de saúde residentes ou atuantes na região amazônica e demais regiões do território nacional”.
No mesmo texto, o órgão justifica a ausência de profilaxia citando a ampla rede descentralizada de diagnóstico e tratamento disponíveis gratuitamente no SUS, além da baixa eficácia preventiva contra Plasmodium vivax, espécie predominante no Brasil. O documento destaca ainda que a medida poderia favorecer resistência medicamentosa e não garantiria proteção diante de infecções por Plasmodium falciparum.
Resposta reforça inexistência de exceções
Uma segunda indagação questionou se haveria indicações específicas em cenário nacional. A pasta manteve a posição: nenhuma circunstância recomendaria o uso preventivo de antimaláricos para residentes ou viajantes internos. Portanto, segundo o parecer, nenhuma das opções oferecidas na pergunta 40 do Revalida estaria alinhada às normas brasileiras.
Esse ponto é crucial porque o edital da avaliação vincula todo o conteúdo às práticas reconhecidas pelo SUS. Se não existe orientação oficial que ampare a profilaxia, a alternativa considerada certa no gabarito conflita com a própria legislação sanitária.
Consequentemente, os candidatos protocolaram pedidos de anulação alegando que a discordância oficial invalida a questão. Até o fechamento desta reportagem, o Inep não havia se pronunciado sobre a possibilidade de rever o resultado.
Candidatos afirmam que um ponto faz diferença
Para quem alcançou 60 acertos, a anulação da pergunta representaria a passagem direta para a segunda etapa, composta por prova de habilidades clínicas. Segundo relatos nas redes, muitos candidatos ficaram exatamente a um ponto da nota de corte.
Além de questionar a coerência acadêmica, os participantes argumentam que a manutenção do item fere a isonomia do exame, já que a mesma pergunta foi anulada no Enamed, teste aplicado no mesmo dia para estudantes de Medicina. No Enamed, a justificativa oficial apontou “ajustes estatísticos”, mas não erro conceitual, acirrando ainda mais a controvérsia.
Para fins de transparência, o Inep chegou a admitir, em dezembro de 2025, a coincidência entre as duas provas, porém sustentou que a anulação no Enamed não implicava, necessariamente, cancelamento no Revalida. Agora, com o parecer ministerial, a discussão ganha novo fôlego jurídico e técnico.
Especialista reconhece literatura internacional, mas cita ausência de diretriz nacional
Antes mesmo da divulgação do documento do Ministério, o infectologista Marcus Lacerda, da Fundação Oswaldo Cruz, já alertava para a inexistência de um protocolo oficial que ampare a profilaxia sistemática. Em entrevista concedida logo após a publicação do gabarito, Lacerda explicou que, na prática clínica, a doxiciclina possui eficácia contra Plasmodium falciparum e é utilizada caso a caso em expedições específicas.
Entretanto, o especialista frisou que essa conduta se baseia em literatura internacional e não em norma do Governo Federal. Dessa forma, mesmo recomendada em alguns contextos globais, a droga não figura em orientações do SUS para profissionais que atuam em território amazônico.
Conflito entre prática global e norma brasileira
A lacuna entre referências científicas estrangeiras e diretrizes locais costuma gerar confusão nos exames nacionais. No caso do Revalida, a banca avaliadora optou por seguir a prática descrita em publicações internacionais, ignorando a política oficial vigente.
Essa divergência expõe a dificuldade de harmonizar provas padronizadas com realidades epidemiológicas específicas. Enquanto países africanos ou asiáticos reconhecem regimes profiláticos amplos, o Brasil confia na capilaridade do diagnóstico rápido e no tratamento gratuito.
Com a confirmação de que não há recomendação oficial aqui, cresce a pressão para que o Inep alinhe o gabarito às orientações do Ministério, sob risco de induzir médicos estrangeiros a protocolos incompatíveis com a rotina do SUS.
Isonomia entre provas permanece em debate
Outro ponto levantado pelos candidatos é a simetria entre o Enamed e o Revalida. Embora aplicados no mesmo dia, apenas a avaliação destinada a estudantes internos teve a pergunta cancelada. Para médicos formados no exterior, a penalização foi mantida, gerando sensação de tratamento desigual.
O Inep defendeu, à época, que questões técnicas da Teoria de Resposta ao Item (TRI) motivaram a anulação no Enamed. Contudo, sem erro conceitual admitido, o parecer do Ministério da Saúde agora reforça o argumento de que o conteúdo também não corresponde ao contexto brasileiro. A partir daí, participantes questionam se o critério estatístico deve prevalecer sobre a aderência às diretrizes de saúde pública.
Próximos passos dependem de posicionamento oficial do Inep
Até o momento, não há prazo para o instituto se manifestar. Possíveis caminhos incluem a anulação da questão, o reajuste de notas ou a manutenção do gabarito. Qualquer mudança impacta diretamente quem ficou na margem de corte, podendo alterar classificações e cronogramas da fase prática.
Se o item for cancelado, o cálculo segue a regra do edital: o valor da pergunta é redistribuído entre as demais, elevando proporcionalmente a pontuação de cada candidato. Em compensação, adiar a decisão alonga a incerteza de um grupo que aguarda meses pelo registro profissional no país.
Impacto na atuação de médicos estrangeiros
O Revalida é passo obrigatório para que graduados fora do Brasil exerçam medicina em solo nacional. A polêmica atual, portanto, não se limita ao universo acadêmico: ela atravessa a carência de profissionais em regiões remotas, uma das motivações do Programa Mais Médicos.
Sem a equivalência de diploma, esses profissionais ficam impedidos de assumir postos em comunidades indígenas, polos de saúde da família ou hospitais de fronteira. Um único ponto, portanto, pode significar a diferença entre atuar nessas áreas ou ter de aguardar um novo ciclo avaliativo.
Enquanto o Inep não define sua posição, os candidatos avaliam medidas judiciais coletivas para garantir a análise do recurso. O Ministério da Educação, ao qual o instituto é vinculado, também foi instado a se pronunciar, mas não enviou resposta até a última atualização deste texto.
Questão evidencia importância de alinhamento interinstitucional
A controvérsia revela a necessidade de diálogo constante entre elaboradores de provas e órgãos de saúde pública. Quando uma diretriz muda ou inexiste, o item de avaliação pode rapidamente se tornar desatualizado, gerando prejuízos para quem depende do exame.
Além disso, o episódio reforça a relevância de revisões independentes nas etapas de construção do Revalida. Integrar especialistas da própria Secretaria de Vigilância em Saúde poderia evitar que o conteúdo final entre em choque com políticas oficiais.
No curto prazo, médicos formados no exterior aguardam o desfecho para saber se o gabarito será corrigido ou se permanecerá como está. O debate, porém, extrapola a nota do exame e coloca em pauta a coerência entre avaliação acadêmica e sistema de saúde.


