Em um festival de 2008, em Melbourne, Patti Smith trocou o set list pelo inesperado: distribuiu ao público uma folha datilografada com seus livros favoritos. A atitude revelou, antes do show, uma leitora voraz que carrega clássicos debaixo do braço desde a adolescência.
De lá para cá, a cantora detalhou essa relação em entrevistas, autobiografias e até em newsletter. O resultado é um núcleo de dez títulos que, segundo ela, sustentam a própria criação artística — os “livros que inspiram Patti Smith”, expressão que usa com frequência.
Como a lista veio a público
O primeiro vislumbre ocorreu naquele show australiano, quando leitores atentos reconheceram, lado a lado, Moby Dick e O Mestre e Margarida. A curiosidade cresceu com o lançamento de Só Garotos (2010) e M Train (2015), memórias em que Patti descreve exemplares perdidos em viagens, cadernos manchados de café e anotações feitas em margens amareladas.
Em 2019, questionada pelo jornal The Guardian, ela apontou Mulherzinhas como o primeiro livro que a fez acreditar poder escrever, e citou O Diário de um Ladrão como maior influência em sua prosa. Já em newsletter recente, confessou que O Diário de Anne Frank “ainda abala a alma”, lembrança alinhada às histórias de guerra que ouvia na infância.
Os títulos que mais ecoam na voz de Patti Smith
Clássicos formadores
Mulherzinhas (Louisa May Alcott, 1868) surge como ponto de partida. Patti vê na personagem Jo March a confirmação de que meninas também podem escrever — lição que ecoa em suas letras. Outro companheiro de juventude é O Diário de Anne Frank (1947): a franqueza da jovem judia, confinada em um anexo, ensinou-lhe que a escrita pode transformar medo em resistência.
A lista prossegue com Villette (Charlotte Brontë, 1853) e As Ondas (Virginia Woolf, 1931). O primeiro, descrito por ela como “emocionalmente exaustivo”, reforça o poder da narração contida. O segundo, com sua estrutura em vozes alternadas, inspira as colagens de pensamento que Patti pratica em diários e canções.
A presença de clássicos longos lembra outra seleção famosa de leituras com poucas páginas mas grande impacto; em um bate-papo recente no Salão do Livro, a artista citou a importância de intercalar romances densos com leituras mais enxutas, tendência explorada no artigo livros curtos, impacto longo.
Narrativas cheias de vertigem
Entre as obras que Patti chama de “portais”, O Mestre e Margarida (Mikhail Bulgákov, 1966) ocupa lugar central. A sátira política misturada ao fantástico ressoa na forma como ela combina poesia e crítica social em palco. O mesmo vale para O Diário de um Ladrão (Jean Genet, 1949), cuja confissão de marginalidade dialoga com a persona punk que a acompanhou nos anos 1970.
A lista inclui ainda Ariel (Sylvia Plath, 1965), tratado por ela como “livro de cabeceira, quase objeto ritual”. Cada poema, afirma, lembra que linguagem pode ferir e curar ao mesmo tempo. Já O Jogo das Contas de Vidro (Hermann Hesse, 1943) oferece a tensão entre retiro e responsabilidade coletiva, tema recorrente em suas performances beneficentes.
Do século 21 vem 2666 (Roberto Bolaño, 2004). Para Patti, a arquitetura caótica do romance espelha a sensação de caminhar por um mundo saturado de violência. O título fecha o bloco de “narrativas vertiginosas”, expressão dela para livros que expandem o horizonte ético do leitor.
Por que esses livros continuam sustentando a artista
Em entrevistas, Patti usa verbos fortes para definir suas leituras: “mudar”, “expandir”, “devastar”, “inspirar”. Assim, os “livros que inspiram Patti Smith” funcionam como combustível constante, e não como troféus em prateleira. Ela relata, por exemplo, carregar Moby Dick em bolsillo de casacos durante turnês, lendo trechos antes de subir ao palco.
O mesmo acontece com Ariel; a poeta ouve fitas de sua própria voz recitando Plath para ajustar a entonação em shows. Já passagens de O Jogo das Contas de Vidro viram notas de diário quando medita sobre o papel do artista em tempos de crise.
Mesmo obras imensas, como 2666, entram e saem da mochila, mostrando que Patti alterna leituras volumosas com títulos mais rápidos — prática que acompanha a tendência de mercado analisada em os campeões de estante.
Para o Salão do Livro, o fascínio está em como essas obras dialogam entre si. Mulherzinhas ensina o valor da criação feminina, O Diário de um Ladrão questiona a moral dominante, As Ondas relativiza o eu. Juntas, elas compõem um sistema de espelhos que Patti revisita há mais de cinquenta anos.
A cantora costuma dizer que, antes de ícone punk, é leitora: alguém que aprendeu a tocar guitarra e escrever versos folheando páginas gastas de sebos. A folha datilografada de 2008 apenas revelou ao público um hábito antigo, agora cristalizado nesta lista de dez títulos que permanecem, segundo ela, “sempre dentro da mala, sempre dentro da cabeça”.


