A educadora indiana Rouble Nagi conquistou nesta quinta-feira (5) o cobiçado Global Teacher Prize, premiação de US$ 1 milhão considerada o “Nobel da Educação”. O reconhecimento ocorreu em Dubai, durante a Cúpula Mundial de Governos, e destaca o impacto de uma rede de mais de 800 centros de aprendizagem criada por ela em comunidades vulneráveis da Índia.
Artista plástica de formação e ativista social, Nagi usou cores, murais temáticos e aulas estruturadas para atrair crianças que jamais haviam pisado numa sala de aula. Segundo a fundadora da Rouble Nagi Art Foundation, o trabalho iniciado há 24 anos já alcançou mais de 1 milhão de estudantes.
Global Teacher Prize: o que é e por que importa
Instituído em 2015 pela Fundação Varkey, o Global Teacher Prize busca valorizar profissionais que transformam vidas por meio da educação. O prêmio anual contempla um único vencedor com US$ 1 milhão, reforçando a importância do magistério em escala mundial.
Nas edições anteriores, o troféu já foi entregue a professores do Quênia, Palestina, Canadá e Arábia Saudita, sempre por projetos que combinam inovação, coragem e forte engajamento social. Ao homenagear Rouble Nagi, a fundação destacou “coragem, criatividade e compaixão” como pilares do trabalho da artista-educadora.
Critérios de seleção do Global Teacher Prize
A escolha envolve impacto comprovado, alcance comunitário e potencial de replicação. No caso de Nagi, pesaram as 800 unidades de ensino que oferecem alfabetização, reforço de ciências, matemática e história a crianças fora da escola ou em risco de evasão.
Outro elemento decisivo foi o uso de arte pública: murais coloridos pintados em favelas funcionam como material didático a céu aberto, tornando o processo de aprendizagem mais acessível. Esse aspecto conferiu originalidade ao projeto e chamou atenção do júri.
Por fim, os avaliadores consideram sustentabilidade financeira e visão de futuro. A educadora já adiantou que usará o prêmio para fundar um instituto voltado à formação profissional gratuita, ampliando o alcance das ações.
A trajetória de Rouble Nagi até o Global Teacher Prize
Natural de Mumbai, Nagi iniciou a carreira como artista plástica. Ainda jovem, sentiu que as cores das suas telas poderiam ultrapassar galerias e dialogar com quem mais precisava. Em 2000, montou uma pequena oficina com 30 alunos, experiência que deu origem ao primeiro “centro de aprendizagem”.
A expansão aconteceu de forma orgânica. Ao perceber que murais criados em comunidades despertavam curiosidade das crianças, ela passou a integrar conteúdos básicos às pinturas. Letras, números e referências culturais indianas foram sendo retratados nas paredes, gerando identificação imediata.
Metodologia baseada em arte e participação comunitária
O método combina aulas presenciais, material lúdico e forte envolvimento dos moradores. Cada centro funciona como ponto de encontro, onde voluntários e professores capacitados oferecem respaldo a estudantes matriculados na rede pública ou completamente fora dela.
Além das disciplinas tradicionais, há reforço em habilidades socioemocionais, artes e esportes. Para muitos alunos, é a primeira oportunidade de acesso regular a livros, tecnologia e atividades extracurriculares.
Com a Fundação Rouble Nagi, a professora também promove oficinas para adultos, principalmente mulheres, visando geração de renda e autonomia financeira. Essa estratégia fortalece a família e diminui a probabilidade de abandono escolar.
Impacto social e próximos passos
Os dados apresentados na cerimônia mostram que mais de 1 milhão de crianças foram alcançadas de modo direto ou indireto pelos programas da fundação. O grau de evasão caiu significativamente nas áreas atendidas, e parte dos estudantes ingressou no ensino médio formal após a intervenção.
Ao receber o Global Teacher Prize, Nagi declarou que o valor do prêmio financiará a construção de um instituto voltado à qualificação profissional. A meta é oferecer cursos gratuitos de tecnologia, design e artesanato, criando um ciclo virtuoso de empregabilidade em setores carentes de mão de obra especializada.
Reconhecimento internacional e apoio institucional
Durante o anúncio, Stefania Giannini, vice-diretora da UNESCO para Educação, sublinhou que o prêmio “reforça o poder de um professor na vida de uma criança”. A menção da agência da ONU dá peso adicional ao feito da indiana.
Sunny Varkey, fundador da premiação e da GEMS Education, ressaltou que a laureada “representa o melhor que o ensino pode ser”. Nas palavras dele, iniciativas como a de Nagi transformam não apenas indivíduos, mas comunidades inteiras.
O apoio deve facilitar parcerias futuras, inclusive com redes privadas que operam na Ásia e no Oriente Médio. O diálogo internacional também pode atrair voluntários e investidores interessados em replicar a abordagem em outros contextos.
Para leitores do Salão do Livro, a história de Rouble Nagi reforça o papel da literatura visual e da criatividade na formação de novos leitores. Seus murais funcionam como portas de entrada para a alfabetização, mostrando que livros e arte podem caminhar juntos na luta contra a desigualdade educacional.


