Trabalhar cinco dias e descansar dois já é realidade para centenas de funcionários do grupo Savegnago a partir de fevereiro. A rede de supermercados decidiu ampliar o projeto-piloto da escala 5×2 e implementar o modelo em seis cidades do interior paulista.
A mudança, que mantém as 44 horas previstas na CLT, substitui o tradicional esquema 6×1 em unidades selecionadas do Savegnago e do Paulistão Atacadista. A companhia pretende medir, nos próximos meses, como a nova distribuição de folgas impacta produtividade, absenteísmo e satisfação das equipes.
O que muda com a escala 5×2
O cerne da alteração está na maneira de distribuir as 44 horas semanais. Em vez de seis jornadas médias de 7 h20, o empregado passa a cumprir cinco turnos de 8 h48. A contabilidade final permanece intacta; o que se transforma é o ritmo da semana.
Para o departamento de Recursos Humanos do grupo, esse rearranjo pode elevar a previsibilidade de horários, facilitar o planejamento pessoal e reduzir o desgaste que costuma acompanhar seis dias consecutivos de serviço. Experiências semelhantes no varejo sugerem, ainda, queda nas trocas de turno de última hora, algo que costuma pesar na organização das escalas.
Distribuição das horas
A nova grade concentra mais tempo diário de trabalho, mas libera dois dias corridos de descanso. Na prática, o colaborador ganha um fim de semana inteiro a cada ciclo, algo raro no varejo alimentar. Segundo o Savegnago, essa folga ampliada tem potencial para melhorar a recuperação física e fortalecer o engajamento das equipes.
Do ponto de vista legal, nada muda: continuam valendo os mesmos salários e benefícios, bem como o limite de 220 horas mensais. A empresa reforça que o cálculo de horas extras permanece inalterado e segue as regras da Consolidação das Leis do Trabalho.
O setor de escalas, porém, precisou recorrer a um ajuste fino para manter a cobertura completa em cada departamento — açougue, padaria, frente de caixa, entre outros. A ideia é que o cliente não perceba a transição, e o fluxo de atendimento siga normal, mesmo com o time usufruindo de dois dias de folga.
Impacto no dia a dia dos colaboradores
Funcionários que participaram do piloto inaugurado em Indaiatuba, em 2025, relatam sensação de maior equilíbrio entre vida profissional e pessoal. A jornada mais longa, admitem, exige disciplina, mas as duas folgas consecutivas compensam. Muitos aproveitam o tempo livre extra para cursos, lazer ou para resolver pendências, evitando, por exemplo, que tenham de faltar durante a semana.
Para o Savegnago, a expectativa é ver se esses benefícios subjetivos se convertem em métricas concretas, como menor turnover e elevação do índice de produtividade por hora. Caso os resultados confirmem a tendência, a empresa sinaliza disposição para levar a escala 5×2 ao restante da rede.
O movimento dialoga com desafios atuais do varejo, que busca reter talentos em meio a um mercado de trabalho mais competitivo. Iniciativas semelhantes já apareceram em outros segmentos, juntamente com programas de benefícios que incluem desde ajuda para primeira habilitação — tema abordado em reportagem do Salão do Livro sobre como a redução no custo da CNH vem atraindo trabalhadores jovens — até subsídios para alimentação e transporte.
Primeiras lojas a adotar o novo modelo
As cidades de Campinas, Sumaré, Hortolândia, Sertãozinho, Barretos e Franca concentram a primeira fase de expansão. Nessas localidades, todas as unidades Savegnago e Paulistão Atacadista já migraram para a escala 5×2.
Municípios contemplados
Em Campinas, maior praça do grupo no interior, a transição envolve centenas de colaboradores espalhados entre hipermercados e lojas de vizinhança. Segundo a diretoria operacional, a cidade foi escolhida por reunir alto volume de clientes e diversidade de perfis de consumo, o que permitirá testar a nova grade em diferentes cenários de demanda.
Sumaré e Hortolândia, municípios vizinhos, acompanham o processo para verificar se o ambiente fabril forte na região interfere no comportamento de compra e, consequentemente, no ritmo de trabalho dos times. Já Sertãozinho, Barretos e Franca entram no roteiro por abrigar unidades do Paulistão Atacadista, bandeira popular que atua no modelo de autosserviço.
Essas cidades formam, portanto, um recorte representativo: permitem comparar resultados em polos industriais, agrícolas e de serviços. O monitoramento ocorrerá mês a mês, com relatórios que englobam presença, vendas por hora trabalhada e satisfação interna.
Próximos passos do Savegnago
Embora ainda não exista data para estender a escala 5×2 a toda a rede, o cronograma de expansão depende diretamente dos indicadores colhidos agora. Se o nível de atendimento permanecer estável — ou melhorar — e a produtividade compensar a reconfiguração dos turnos, novas lojas entram no radar.
A direção da companhia cita metas claras: reduzir absenteísmo, diminuir pedidos de troca de folga e elevar a nota de satisfação dos colaboradores. Em paralelo, acompanha o impacto financeiro, uma vez que qualquer variação percentual em horas extras ou em custos de pessoal pode afetar a margem do negócio.
Avaliação contínua de desempenho
O Savegnago monitora cinco pilares: absenteísmo, produtividade, escalas de folga, feedback dos clientes e desempenho das equipes. Os dados são cruzados mensalmente. Caso algum indicador se desvie, ajustes pontuais nas turmas ou na grade de horários serão feitos antes de avançar para outras regiões.
O grupo não descarta, inclusive, reforçar a oferta de capacitação durante as folgas, ideia inspirada em linhas de crédito para micro e pequenas empresas, como o financiamento recém-liberado pelo Banco do Nordeste, para fomentar a qualificação e o empreendedorismo entre funcionários.
Outro ponto em estudo envolve a sazonalidade. Em datas de pico, como Natal e Páscoa, a carga adicional costuma ser absorvida por contratação temporária. A companhia avalia se o novo formato permite flexibilizar ainda mais essas escalas, preservando as duas folgas sem comprometer atendimento e reposição de gôndolas.
Por ora, a adoção da escala 5×2 seguirá limitada às seis cidades anunciadas. Somente após concluir essa fase de testes, o Savegnago decidirá se levará o modelo às demais lojas. Até lá, os relatórios devem oferecer dados valiosos para um setor que enfrenta, além da alta rotatividade, pressão para oferecer melhores condições de trabalho e atrair mão de obra qualificada.
Com o experimento, o Salão do Livro observa que o varejo alimentar acompanha uma tendência mais ampla do mercado de revisar jornadas, assim como outras medidas em curso, exemplificadas pelo guia sobre organização de documentos para o Imposto de Renda, que também busca simplificar processos e aumentar a eficiência dos trabalhadores.
Nesse cenário, a escala 5×2 pode se consolidar como estratégia de retenção, sobretudo em praças com oferta limitada de mão de obra. A depender dos resultados, outras redes devem observar de perto a experiência paulista e, quem sabe, replicar a iniciativa em todo o país.


