Quem ainda associa infração gravíssima ao valor “padrão” de R$ 293,47 corre o risco de levar um susto ao abrir a notificação do Detran. O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) autoriza o uso do chamado fator multiplicador, ferramenta que faz a multa saltar de algumas centenas para milhares de reais. Em certos cenários, a conta passa facilmente dos R$ 17 mil.
Na prática, o multiplicador recai sobre condutas consideradas de alto risco. Bloquear uma via, disputar racha ou recusar o bafômetro estão entre os exemplos que, além do rombo no bolso, provocam suspensão imediata da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). A seguir, destrinchamos como esse mecanismo funciona, quais são as infrações mais onerosas e o que o condutor pode fazer para evitar a penalidade máxima.
Como funciona o fator multiplicador de multas de trânsito
A base é simples: toda infração gravíssima custa R$ 293,47. Quando o legislador considera que determinada falta afeta a segurança de forma “acima da média”, aplica-se o multiplicador, que pode ser de 2 até 60 vezes. O resultado final é a quantia que chega ao motorista.
Do ponto de vista legal, a lógica é punir condutas que ameaçam a vida ou comprometem o fluxo das vias de maneira deliberada. O dispositivo também serve para desencorajar práticas recorrentes em grandes cidades, como o bloqueio de avenidas durante protestos sem autorização prévia.
Multiplicadores previstos no CTB
O CTB determina seis categorias de acréscimo: 2x, 3x, 5x, 10x, 20x e 60x. Cada uma está atrelada a um comportamento específico. Ultrapassar pelo acostamento, por exemplo, recebe peso 5, enquanto disputar corrida em via pública chega ao multiplicador 10.
Já o valor máximo, 60 vezes, é reservado a casos em que o próprio condutor organiza o bloqueio da via. Nessa situação, o montante alcança R$ 17.608,20 e o direito de dirigir fica suspenso por 12 meses, prazo que pode inviabilizar o trabalho de quem depende do veículo para exercer a profissão.
Embora esse seja o topo da lista, não deve ser ignorada a multa de 20 vezes destinada a quem utiliza o veículo para simplesmente interromper o trânsito, ainda que sem ser o articulador do bloqueio. O valor cai para R$ 5.869,40, mas continua suficiente para comprometer qualquer planejamento financeiro.
Infrações que mais pesam no bolso
Entre as situações que mais geram multas de trânsito acima de R$ 1.000, cinco se destacam pela frequência nos grandes centros e rodovias.
Bafômetro e racha: dobro de dano em caso de reincidência
Quem insiste em unir álcool e direção paga R$ 2.934,70, graças ao multiplicador 10. A recusa a soprar o bafômetro produz exatamente a mesma cobrança, regra que impede brechas na fiscalização. Se houver nova autuação em menos de 12 meses, o valor se duplica e volta a atingir R$ 5.869,40.
No mesmo patamar está a disputa de corrida, popularmente chamada de racha. O CTB equipara rachas a manobras perigosas, como exibir derrapagens propositais ou empinar a motocicleta em via pública. A penalidade financeira é acompanhada de recolhimento imediato do veículo.
A suspensão da CNH, em todos esses casos, dura um ano. Quem descumpre a ordem e continua dirigindo cai em outra infração gravíssima, agora com multiplicador 3, além do risco real de prisão em flagrante se provocar acidente.
Ultrapassagem pelo acostamento custa caro
Embora pareça “menos grave” aos olhos de muitos, ultrapassar pelo acostamento ou passagem de nível bate em R$ 1.467,35, valor calculado com multiplicador 5. O perigo se justifica: o acostamento serve à fuga de emergência e ao resgate de veículos quebrados; ocupá-lo coloca todos em risco.
Além dos sete pontos computados, a polícia rodoviária sinaliza que, em picos de congestionamento, a prática se torna ainda mais vigiada, já que a manobra bloqueia o acesso de ambulâncias e viaturas. Em corredores comerciais, a mesma infração gera queixas de lojistas que veem a faixa de pedestres se transformar em pista extra não oficial.
Para quem cruza frequentemente rodovias com limite de velocidade elevado, vale lembrar: aumento de fiscalização eletrônica nos acostamentos tem sido prioridade, movimento parecido ao que ocorreu com os radares fixos nos anos 2000.
Como evitar surpresas e manter a CNH em dia
Evitar multas de trânsito acima de R$ 1.000 passa pela obediência às normas, mas também por detalhes administrativos. Manter o endereço atualizado no Detran é crucial. Muitas suspensões são confirmadas porque o motorista desconhece a autuação e perde o prazo de defesa.
Pagamento antecipado dá desconto de até 40%
Desde a criação do Sistema de Notificação Eletrônica (SNE), quem admite a infração na primeira notificação paga com abatimento de 40%. A economia não livra da pontuação ou da suspensão, porém reduz o impacto financeiro. Em tempos de orçamento apertado, essa despesa menor ajuda a equilibrar contas como IPVA ou até a restituição do imposto de renda, tema que tem movimentado contribuintes enquanto a Receita Federal libera lotes residuais.
O sistema também notifica pelo aplicativo, o que evita extravios de correspondência. Em meio à digitalização de serviços públicos, condutores relatam ganho de agilidade semelhante ao observado por quem antecipa o saque do FGTS diretamente pelo celular.
Outro ponto é acompanhar a pontuação acumulada. Suspensões automáticas podem ocorrer mesmo sem infração autossuspensiva caso o limite de pontos seja extrapolado em 12 meses. Portanto, revisar o extrato no portal do Detran evita a surpresa de um bloqueio imprevisto.
Já no aspecto financeiro, especialistas recomendam reservar verba para taxas anuais obrigatórias e possíveis penalidades. Assim como o trabalhador planeja o calendário de benefícios, como o PIS/Pasep, o motorista prudente deve prever custos com manutenção, licenciamento e, eventualmente, multas.
Por fim, vale destacar que o Salão do Livro observa o tema sob o prisma educacional: conhecer a lei torna o condutor mais consciente, reduz sinistros e, como bônus, poupa o dinheiro que faria falta em projetos pessoais, leitura ou formação profissional.


