O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) voltou a defender publicamente a meta de analisar cada requerimento de benefício em até 45 dias. Para isso, a autarquia unificou equipes de todo o país, criou bônus de produtividade e projeta derrubar, paulatinamente, os 1,6 milhão de processos que superam o prazo legal.
Ao rebater manchetes que questionavam a promessa feita durante a campanha eleitoral, o presidente Gilberto Waller Júnior apresentou dados que indicam crescimento histórico da capacidade de atendimento. As medidas, segundo ele, já permitem falar em um ritmo de 1,5 milhão de análises mensais, volume que supera a entrada de novos pedidos.
Meta de 45 dias redefine o que é “zerar” a fila do INSS
Waller explicou que “zerar” a fila não significa deixar de receber demandas — hoje, cerca de 1,3 milhão chegam aos sistemas a cada mês. O objetivo, portanto, é que esse fluxo permanente seja concluído dentro do prazo legal de 45 dias, evitando o acúmulo que atormenta segurados há anos.
A mudança de conceito ecoa nas Gerências Executivas: em vez de correr atrás do passivo, cada servidor passa a atuar na prevenção de novos atrasos. A estratégia guarda semelhanças com iniciativas de gestão de fila em serviços públicos no exterior, mas o INSS acrescentou ingredientes locais, como a redistribuição de processos entre as agências.
Capacidade Nacional integra servidores de todo o país
Desde 19 de janeiro, qualquer técnico pode receber, em sua fila de trabalho, processos originados fora de seu estado. Essa “Capacidade Nacional” derruba fronteiras regionais e evita cenários em que capitais superlotadas convivem com agências ociosas no interior.
Na prática, um servidor de Sergipe pode analisar benefícios de São Paulo, enquanto colegas paulistas assumem demandas de outras áreas. Segundo o INSS, a ferramenta equaliza a força de trabalho entre regiões e cria um colchão para eventuais picos de solicitação.
O modelo lembra experiências adotadas na Receita Federal, órgão que também migrou para filas únicas de processamento. No Salão do Livro, especialistas em administração pública apontam que a união de bases digitais, treinamento conjunto e métricas compartilhadas costuma elevar a produtividade geral.
Bônus de produtividade acelera concessões em larga escala
Outro pilar do novo plano é o pagamento de bônus por análise extra. O servidor que concluir processos além da meta mínima recebe gratificação variável, mecanismo já utilizado em outras gestões, mas agora aperfeiçoado com indicadores de qualidade.
Na primeira semana do programa, foram 118 mil pedidos liberados além do volume habitual. Se o ritmo se mantiver, o acréscimo pode chegar a 480 mil decisões mensais — quase um terço da capacidade total projetada pela autarquia.
Resultados preliminares apontam salto imediato
Relatórios internos mostram que o tempo médio de espera em determinados benefícios recuou logo nas primeiras rodadas de pagamento. Para segurados que dependem de aposentadoria por incapacidade, por exemplo, o prazo médio declinou em cerca de duas semanas.
O órgão enfatiza que a gratificação está vinculada a critérios de precisão. Processos reanalisados por erro grosseiro anulam o bônus recebido, estratégia que, segundo a diretoria, inibe “decisões temerárias” destinadas a apenas inflar estatísticas.
O debate sobre remuneração variável voltou à tona entre entidades representativas dos servidores, que pleiteiam sua transformação em política permanente. A autarquia, contudo, afirma que qualquer alteração desse porte depende de negociação com o Ministério da Gestão.
Desafios persistem, mas redução consistente da fila do INSS é projetada
Mesmo com as ações de choque, o INSS admite delicado quadro de pessoal: o corpo funcional, que já ultrapassou 40 mil servidores, hoje não chega a 18 mil. Concurso público virou palavra de ordem, mas a autorização para o certame ainda aguarda sinal verde da equipe econômica.
A autarquia afirma, porém, que o reforço tecnológico — uso de inteligência artificial para triagem, melhoria de sistemas e revisão de fluxos — compensa parte da defasagem. O objetivo imediato é derrubar a fila crítica em 20 % “no curto prazo”, porcentual não especificado em meses.
O presidente do instituto também ressaltou que manchetes com tom alarmista prejudicam a compreensão dos segurados sobre o esforço em curso. Ele citou exemplos de avanços na concessão de BPC, benefício que tradicionalmente exige perícia social e costuma concentrar atrasos.
Apesar de a pauta principal ser a velocidade das análises, outros temas preocupam o segurado. O reajuste de 3,9 % para cinco grupos de beneficiários, previsto para 2026, e o novo teto do INSS estão entre os mais consultados nas agências, mostrando que, além da espera, o valor do benefício segue no centro do debate.
Segurados que aguardam aposentadoria também questionam regras de transição. Para casos com menor tempo de contribuição, o interesse aumenta com a divulgação da possibilidade de aposentar com menos de 15 anos de recolhimento, alternativa que depende de requisitos específicos de idade.
Do ponto de vista orçamentário, a redução de fila não traz, de imediato, economia aos cofres públicos. Ao contrário, quanto mais benefícios concedidos, maior a despesa corrente. A diretoria do INSS argumenta, porém, que atrasos geram passivos judiciais e correção monetária, custos superiores ao processamento em dia.
A mobilização nacional ocorre em meio a debates sobre outras fontes de renda do trabalhador. O próximo calendário do PIS/PASEP, que pode render abono de até R$ 1.621 em 2026, reforça a importância de políticas sincronizadas para reduzir pressão sobre o sistema previdenciário.
Para quem acompanha de perto a evolução da fila do INSS, a combinação de metas claras, bônus e força-tarefa integrada ganha o status de experiência-piloto. Se confirmada a queda de 20 % nos próximos meses, o modelo deverá balizar novas iniciativas de transformação digital dentro do governo federal.


