Uma sequência de notas mais baixas do que o histórico dos candidatos acendeu o alerta: algo mudou na correção da redação do Enem 2025. Desde a divulgação dos resultados, em 16 de janeiro, centenas de estudantes relatam variações inéditas em seu desempenho.
Documentos sigilosos, e-mails e depoimentos de corretores obtidos pela reportagem apontam três ajustes internos capazes de alterar significativamente a avaliação dos textos, mesmo que o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) negue qualquer alteração oficial.
Quedas inesperadas expõem divergências
Vinícius de Oliveira, aluno do quinto ano de medicina, faz o exame anualmente para ajudar seus mentorados. Após alcançar 900, 960, 980 e 920 pontos nas edições anteriores, ele viu a nota despencar para 760 em 2025. O choque não foi isolado: Guilherme, 23 anos, acostumado a pontuar acima de 900, recebeu 740.
Os relatos inundaram fóruns e redes sociais. Coordenadores de cursinho constatam o mesmo movimento. Sérgio Paganim, do Curso Anglo, resume o sentimento: a correção da redação do Enem 2025 se mostrou “mais rigorosa e subjetiva” que em anos anteriores.
Candidatos alegam falta de transparência
A principal queixa é de que a mudança não foi comunicada. Como o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) passou a aceitar notas de 2023 a 2025, quem estreou no exame se sentiu prejudicado diante de colegas corrigidos sob critérios diferentes.
Gabriel Gaspar, aprovado em medicina na USP via Fuvest, desistiu do Sisu depois de ver a nota cair de mais de 900 para pouco mais de 700 pontos. “Se dependesse só disso, perderia mais um ano”, afirma.
O impacto também alcança bolsistas de cursos preparatórios, que contam com o desempenho na redação para abatimento de mensalidades. “Ficou mais difícil comprovar evolução quando o parâmetro muda no meio do jogo”, diz Luana, que saiu de 940 (2024) para 720 (2025).
Novas diretrizes internas ampliam margem para subjetividade
Os papéis obtidos mostram três mudanças centrais. A primeira atinge a competência 4, dedicada à coesão. Antes quantificado pela contagem de conectivos, o critério passou a ser descrito como “pontual, regular, constante ou expressivo”, abrindo espaço para interpretação diversa entre avaliadores.
A segunda alteração recai sobre a competência 5, que avalia a proposta de intervenção. Mantinha-se a perda de 40 pontos ao faltar qualquer dos cinco elementos (ação, agente, finalidade, meio, detalhamento). Em 2025, uma nota de rodapé determinou punição extra de 120 pontos caso a ação fosse omitida, multiplicando o prejuízo.
Repertório sociocultural pesa em duas competências
O terceiro ajuste envolve a competência 2. O material de treinamento enviado após os encontros presenciais vincula essa competência à 3, dobrando o “desconto” para repertório sociocultural mal contextualizado. Na prática, referências superficiais a livros ou filmes passaram a sofrer corte duplo.
Corretores ouvidos relatam que o comunicado chegou tardiamente, quando muitos já haviam iniciado as correções piloto. “Para cada supervisor, havia uma explicação diferente”, afirma Geralda, que prefere não se identificar.
Esse cenário, aliado à remuneração de cerca de R$ 3 por texto, dificulta uniformizar critérios. Com meta de ler até 200 redações por dia, avaliadores relatam exaustão e falhas no sistema eletrônico.
Inep nega alterações, mas admite mesmo quadro de corretores
Em entrevista, o presidente do Inep, Manuel Palacios, declarou que “não houve nenhuma mudança no critério de correção” e que a equipe é a mesma, capacitada pelos mesmos padrões. A autarquia reforça que cada redação é avaliada por pelo menos dois corretores, com previsão de terceira leitura em caso de discrepância.
Questionado sobre sobrecarga e remuneração, o órgão não se manifestou. O Cebraspe, contratado para a correção desde 2023, respondeu que apenas o Inep fala sobre o Enem.
Consequências no acesso ao ensino superior
A falta de comunicação oficial sobre a correção da redação do Enem 2025 provoca insegurança. Para candidatos sem outras opções de vestibular, a queda na nota representa perda de vagas e, possivelmente, de bolsas de estudo. Paganim avalia que a discrepância “pode custar um ano de vida acadêmica a muitos jovens”.
Já para escolas e cursinhos, o resultado da redação influencia rankings internos e campanhas de marketing. Alguns relatam aumento na demanda por aulas focadas em repertório autoral, tentando fugir do que chamam de “modelos prontos”, alvo de maior severidade este ano.
Em meio à polêmica, cresce a pressão por divulgação completa dos manuais de correção. Entidades estudantis cobram que o Inep publique as orientações detalhadas antes da próxima edição, a fim de evitar contraste de critérios.
No Salão do Livro, a conversa sobre educação se estende para além das páginas: professores e escritores passaram a debater como a escrita autoral pode driblar bancas cada vez mais exigentes. Em comum, a ideia de que, sem transparência, a confiança no exame nacional fica fragilizada.


