Chegar à terceira idade costuma vir acompanhado de perguntas práticas: como garantir renda todos os meses? Quem nunca contribuiu o bastante ao INSS logo esbarra no Benefício de Prestação Continuada, o popular BPC. Já quem tem anotações na carteira de trabalho olha para a aposentadoria.
A dúvida é recorrente — e legítima. Embora ambos garantam um salário mínimo mensal, cada programa segue critérios diferentes de acesso, cálculo e direitos. O Salão do Livro reuniu, abaixo, o que realmente importa para decidir entre as duas opções.
Como funciona o Benefício de Prestação Continuada
O BPC, previsto na Lei Orgânica da Assistência Social, é assistencial: não exige contribuição prévia. O foco é proteger financeiramente idosos a partir de 65 anos e pessoas com deficiência de qualquer faixa etária que vivam em vulnerabilidade social.
A renda é fixa em um salário mínimo — hoje, R$ 1.412, passando a R$ 1.621 em 2026 — e não há pagamento de 13º. Além disso, o benefício não gera pensão por morte. Ou seja, termina junto com o titular.
Critérios de renda e inscrição no CadÚnico
Para receber o BPC, o cidadão precisa comprovar renda familiar de até um quarto do salário mínimo por pessoa. A conta engloba todos os que vivem sob o mesmo teto, inclusive eventuais benefícios previdenciários.
Também é obrigatório constar no Cadastro Único para Programas Sociais, com dados atualizados nos últimos dois anos. Sem esse registro, o pedido sequer anda.
Outro ponto que costuma pegar de surpresa é a impossibilidade de acumular o BPC com qualquer aposentadoria. Se o idoso reúne condições de se aposentar, terá de optar: ou um, ou outro.
Regras da aposentadoria para idosos
Diferente do BPC, a aposentadoria é um benefício contributivo. Quem recolheu ao INSS por pelo menos 180 meses — o equivalente a 15 anos — já pode pedir a aposentadoria por idade aos 65 anos (homens) ou 62 anos (mulheres). Há ainda fórmulas de tempo de contribuição e modalidades rural, mas a lógica permanece: sem contribuição, não há concessão.
O valor final varia conforme o histórico de recolhimentos, indo de um salário mínimo ao teto previdenciário, hoje em R$ 8.475,55. Depois da reforma de 2019, o cálculo tem como ponto de partida 60% da média de salários, acrescido de 2% por ano extra de contribuição além do mínimo.
Cálculo do valor e direitos adicionais
Além do valor potencialmente maior, a aposentadoria dá direito ao 13º salário, pensão por morte para dependentes e possibilidade de outros benefícios, como o adicional de 25% para quem precisa de ajuda permanente — assunto detalhado na série “adicional de 25% na aposentadoria” publicada pelo Salão do Livro.
É justamente essa rede de proteção que faz muita gente preferir esperar alguns anos e completar o tempo de contribuição, mesmo vivendo com renda apertada.
Outro atrativo da aposentadoria está na liberdade de renda. Diferente do BPC, não há limite financeiro para a família do segurado: basta cumprir idade e carência de pagamentos.
Quando cada benefício é mais vantajoso
O BPC costuma ser a saída imediata para quem nunca contribuiu ou não conseguiu completar os 15 anos de recolhimentos. Idosos que dependem exclusivamente da própria renda e vivem em situação de baixa renda enxergam no benefício uma forma de garantir, ao menos, o piso nacional.
Já a aposentadoria é mais vantajosa para quem tem histórico de contribuição suficiente e deseja deixar pensão a dependentes. O 13º salário e a possibilidade de receber acima de um salário mínimo também pesam na balança.
Por lei, não existe acúmulo entre as duas modalidades. Porém, o segurado pode migrar do BPC para a aposentadoria se vier a cumprir os requisitos. Nessa hora, é obrigatório renunciar ao benefício assistencial.
Uma boa prática recomendada por especialistas é simular os valores no aplicativo Meu INSS antes de tomar qualquer decisão. A ferramenta mostra, por exemplo, se falta pouco para cumprir carência ou se seria necessário iniciar contribuições como facultativo.
Vale lembrar que alguns trabalhadores podem receber outros abonos enquanto aguardam a aposentadoria. Quem tem saldo de abono salarial, por exemplo, pode verificar se há valores a sacar de até R$ 1.621, reforçando o orçamento de curto prazo.
Por fim, quem já recebe aposentadoria e trabalha com carteira assinada mantém direitos trabalhistas. Empresas que adotam escalas flexíveis, como a recente mudança para jornada 5×2 em alguns supermercados do interior paulista, mostram que é possível conciliar renda previdenciária com novas formas de emprego.
Independentemente da escolha, a documentação deve estar em ordem — principalmente identidade, CPF e comprovações de renda. Falhas simples atrasam análises e podem deixar o idoso meses sem resposta.
Compreender as diferenças entre BPC e aposentadoria, portanto, evita prejuízos e agiliza o acesso ao dinheiro. Quem mira o BPC deve priorizar a regularização no CadÚnico. Quem busca aposentadoria precisa checar todas as contribuições, inclusive antigos carnês. A decisão final, como visto, passa pelo histórico contributivo e pela realidade financeira de cada família.


