Tradicional no comércio, na gastronomia e em muitos serviços, o regime de seis dias de trabalho para um de folga virou alvo prioritário de deputados e senadores em 2026. A chamada escala 6×1, hoje amparada pela CLT, pode ser reformulada ainda neste semestre, caso o Congresso aprove um pacote de alterações que conta com o apoio do Ministério do Trabalho.
O projeto mantém a remuneração integral, mas corta horas semanais e amplia o descanso. Para quem acompanha o tema pelo Salão do Livro, a discussão ganhou força depois de declarações do ministro Guilherme Boulos, defensor de jornadas mais curtas como forma de ampliar produtividade e saúde mental.
Escala 6×1: o que a legislação atual determina
A Constituição Federal estabelece limite diário de oito horas e teto semanal de 44 horas. Dentro desse desenho, a escala 6×1 garante ao empregado um dia de descanso remunerado a cada seis trabalhados, preferencialmente aos domingos. Há ainda intervalo intrajornada mínimo de 60 minutos quando a carga ultrapassa seis horas por dia.
Na prática, o formato se consolidou em setores que não fecham nos fins de semana, como supermercados, restaurantes e farmácias. Empresários alegam que o modelo dá previsibilidade à operação, mas especialistas em saúde do trabalho alertam para impactos físicos e emocionais de longas sequências sem descanso duplo.
Mudanças propostas para 2026
O texto que tramita na Câmara dos Deputados prevê abandonar o 6×1 em favor de semanas com mais folgas. Dois arranjos chamam atenção: o 5×2, que reduz o teto para 40 horas, e a semana de quatro dias, atualmente em fase piloto em algumas empresas.
Modelo 5×2: redução para 40 horas semanais
Se aprovado, o formato 5×2 obrigará companhias a redistribuir atividades em apenas cinco dias, garantindo dois de folga. O governo sustenta que a produtividade não cairá. Segundo o ministro Boulos, trabalhadores descansados chegam a render 40% mais, compensando a diminuição da carga horária.
Representantes do varejo temem aumento de custos, já que parte das lojas terá de contratar pessoal extra para cobrir escalas. Mesmo assim, o projeto veda qualquer corte salarial, requisito considerado inegociável pela bancada governista.
Outro ponto em debate é a adaptação gradual. Relatores estudam conceder prazo de até dois anos para micro e pequenas empresas migrarem ao 5×2 sem comprometer fluxo de caixa.
Semana de quatro dias: cenário experimental
Chamada informalmente de 4×3 ou 32 horas, a semana de quatro dias virou case no setor de tecnologia e em startups que buscam reter talentos. A proposta em discussão inclui incentivos fiscais, como redução de contribuição patronal, para firmas que aderirem voluntariamente ao novo desenho.
Resultados preliminares mostram queda no absenteísmo e melhora de 23% no engajamento, de acordo com sondagem apresentada em audiência pública. Ainda assim, parlamentares da oposição cobram estudos mais robustos antes de transformar o piloto em política de Estado.
O relator na Câmara, deputado Caio Moraes (PSB-BA), sugere revisão anual dos indicadores de saúde mental e produtividade, para que o Congresso possa recalibrar eventuais distorções.
Impactos esperados: vantagens e desafios para empresas e empregados
Para os trabalhadores, a principal vantagem é óbvia: mais tempo para lazer, família e cursos de atualização. Especialistas em psicologia do trabalho relacionam jornadas menores a menor incidência de burnout, fenômeno que tomou força na pandemia.
Do lado empresarial, o obstáculo maior é financeiro. Adaptações de escala podem demandar novas contratações ou pagamento de hora extra em períodos de pico. Ainda assim, consultorias apontam que equipes motivadas reduzem rotatividade, o que também gera economia.
Há, adicionalmente, a discussão sobre modelos híbridos. Parte do texto propõe que empresas que operam 100% online possam adotar teletrabalho parcial, combinando home office e presença física. A expectativa é fechar lacunas de segurança digital, sobretudo diante do avanço de armadilhas do IPVA e outros golpes virtuais identificados em 2026.
O cronograma legislativo prevê votação no plenário da Câmara até junho. Se houver aprovação, o texto segue ao Senado, onde novas audiências devem ocorrer. Negocia-se, ainda, janela de transição escalonada de 12 a 24 meses para que setores mais sensíveis possam planejar o caixa.
Enquanto o debate avança, sindicatos intensificam campanhas de conscientização, lembrando que a escala 6×1 foi criada em 1943, quando a realidade social era bem diferente. Ao que tudo indica, 2026 pode marcar o maior ajuste na jornada brasileira desde a promulgação da própria CLT.


