A tão comentada CNH simplificada saiu do papel: desde 26 de janeiro de 2026, quem tenta a primeira habilitação em São Paulo encara um teste prático repaginado. A proposta do Detran-SP é enxugar etapas temidas, diminuir o estresse e, ainda assim, checar se o futuro motorista domina situações reais de trânsito.
A nova bateria de exigências nasce da Resolução 1.020 do Contran e já inspira outros departamentos estaduais. Baliza virou passado, carro automático entra em cena para todos e a prova passa a espelhar melhor a dinâmica das ruas.
O que muda no exame prático da CNH simplificada
As alterações atingem diretamente o roteiro do percurso, os veículos disponíveis e a forma de medir o desempenho do candidato. Veja os destaques.
Baliza deixa de ser obrigatória
A manobra entre estacas, vilã de incontáveis reprovações, não faz mais parte da lista de desafios. O Detran-SP se alinhou a Amazonas, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Goiás e ao Distrito Federal—que já dispensava a baliza desde 2004—e encerrou a exigência.
Na prática, o avaliador agora acompanha o condutor em via pública, verificando conversões, uso correto da seta, respeito à sinalização e parada em local permitido. Ao remover a baliza, considerada pouco representativa do cotidiano, a autarquia pretende avaliar a condução de forma mais ampla e fluida.
Carro automático disponível para todos
Outra mudança de peso é a liberação do câmbio automático sem restrições. Antes, modelos sem pedal de embreagem eram liberados apenas para quem apresentava necessidade especial. Agora, qualquer candidato pode escolher entre câmbio manual ou automático, refletindo a crescente presença desses veículos na frota brasileira.
Com essa inclusão, o Detran reconhece que a tecnologia evoluiu e que a adaptação a novos sistemas de transmissão faz parte da rotina nas ruas. A medida também elimina dúvidas sobre qual tipo de licença o motorista recebe: o documento continua valendo para qualquer veículo de categoria B, independentemente do câmbio utilizado na prova.
Impacto direto no nervosismo dos candidatos
A baliza sempre gerou tensão extra, principalmente entre motoristas inexperientes. Ao eliminá-la, o órgão aposta na redução da ansiedade, que costuma comprometer a performance mesmo de quem praticou exaustivamente.
Com foco em situações reais—mudanças de faixa, controle de velocidade, atenção a pedestres—o candidato tende a se sentir mais confiante. O resultado esperado é menor índice de reprovação por detalhes técnicos que pouco interferem na segurança, e maior concentração no comportamento responsável ao volante.
Para quem vê o processo de habilitação como um obstáculo financeiro, a simplificação também ajuda. O pacote completo anunciado pelo Detran-SP reduziu o tempo da prova teórica para 1 hora e diminuiu a necessidade de acertos de 21 para 20 questões. Além disso, exames médico e psicotécnico ficaram mais em conta, um alívio parecido com o que idosos sentem quando entram na fila prioritária da restituição do Imposto de Renda.
Avaliação continua rigorosa, mas mais próxima da vida real
Apesar de enxuto, o novo formato não abre mão de controles cruciais de segurança. Sinais de trânsito, preferência de pedestres e domínio do carro em condições cotidianas permanecem no radar do examinador. O objetivo é garantir que, sem a conhecida “trava” da baliza, o candidato não relaxe onde não deve.
Até porque, segundo o Contran, 90% dos acidentes envolvem falha humana. A reformulação busca justamente reforçar comportamentos preventivos e não apenas aptidões mecânicas. Ao reproduzir o fluxo urbano, a prova expõe o futuro condutor a situações imprevisíveis, algo impossível dentro de um pátio reservado apenas à baliza.
Prova teórica, exames médicos e prazos mantêm ritmo acelerado
O conjunto de mudanças veio em pacote único, válido desde o fim de 2025. Quem se matricular agora encontra prova teórica mais curta, custo menor nos laudos de saúde e flexibilidade para aulas, inclusive virtuais. Para comparativo, o Instituto Nacional do Seguro Social suspendeu serviços presenciais durante a atualização de sistemas, como noticiado recentemente; no caso da CNH, o Detran agilizou tudo sem interromper totalmente o calendário.
Em termos de prazo, não há mudança: o candidato continua dispondo de 12 meses para concluir todas as etapas, contados a partir da matrícula na autoescola. Porém, com menos etapas “pedra no sapato”, especialistas estimam que muitos finalizarão mais rápido, economizando em aulas extras.
Vale lembrar que a obrigatoriedade de 20 horas mínimas de aula prática permanece. Só que, agora, todas podem ocorrer em vias públicas, sem reserva de dias no pátio para treinar baliza. As autoescolas, por sua vez, avaliam ajustar pacotes e tarifas, já que a logística muda. Em vez de turnos dedicados à manobra, instrutores passam a percorrer rotas urbanas diversas.
No Salão do Livro, leitores cinéfilos costumam ver paralelos entre roteiros bem editados e reformas eficientes. Aqui, a CNH simplificada lembra um filme que corta cenas supérfluas sem mexer na essência: o público—ou melhor, o futuro motorista—entende a história com menos distrações.
Por enquanto, São Paulo desponta como laboratório nacional da medida. Outras unidades da federação observam os resultados antes de copiar a cartilha. Se a estatística apontar melhor preparo dos novatos, a baliza deve se aposentar de vez em todo o país—assim como já ocorreu com filmes que aposentam certos clichês ao conquistar crítica e público.
Enquanto isso, quem pretende agendar o exame pode aproveitar o período de transição. Candidatos já matriculados seguem a regra vigente na data da prova, bastando solicitar o uso de carro automático se desejarem. Com o fim das estacas, é bom redirecionar as horas de treinamento para conversões, controle de embreagem (em carros manuais) e leitura de placas.
Para quem vê na habilitação um requisito profissional, as alterações devem agilizar a entrada no mercado. A Secretaria de Desenvolvimento Econômico, por exemplo, anunciou 15 mil vagas nos Postos de Atendimento ao Trabalhador, muitas delas que exigem CNH categoria B. Um processo menos burocrático encurta o caminho entre o candidato e a vaga.
Por ora, os testes iniciais do novo modelo indicam redução no tempo total de avaliação e no desgaste emocional. O Detran-SP prevê consolidar estatísticas de aprovação ainda no primeiro semestre para medir se a CNH simplificada, de fato, cumpre seu nome. Até lá, vale ficar de olho em outros anúncios de modernização, como os lotes residuais de restituição liberados pela Receita, sinal de que a digitalização de serviços governamentais avança em frentes variadas.


