A tirzepatida ganhou holofotes por acelerar a perda de peso e melhorar o controle glicêmico, mas o sucesso clínico veio acompanhado de um novo sinal amarelo. Um relatório recém-divulgado pela Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde (MHRA), do Reino Unido, associa o Mounjaro e outros agonistas de GLP-1 e GIP a centenas de episódios de pancreatite, incluindo mortes.
A notícia repercute entre endocrinologistas, pacientes e também aqui no Salão do Livro, que acompanha temas de saúde pública com foco em dados. Afinal, vale a pena seguir usando o remédio? Quais sintomas precisam de atenção? O texto a seguir destrincha as respostas usando linguagem direta e mais de 800 palavras para você não ficar perdido.
Dados da MHRA expõem a dimensão do risco de pancreatite
O alerta britânico, publicado em fevereiro de 2026, mapeou 1.304 notificações de pancreatite ligadas à classe dos agonistas de GLP-1 e GIP. Desse total, 24 evoluíram para pancreatite necrosante, quadro grave em que parte do tecido pancreático morre, e 19 resultaram em óbitos. O documento não discrimina quantos eventos ocorreram exatamente com a tirzepatida, mas deixa claro que Mounjaro, Wegovy e Ozempic aparecem entre os fármacos citados.
Apesar de o risco de pancreatite ser classificado como “baixo” frente aos milhões de prescrições, a agência reforçou a necessidade de acompanhamento clínico e atualização das bulas. A recomendação inclui investigar histórico de doenças biliares ou pancreáticas antes de iniciar o tratamento e interromper o uso ao primeiro sinal de dor abdominal intensa.
Essa vigilância se assemelha ao que acontece em áreas financeiras: do mesmo modo que a nova regra do PIX elevou o rastreamento de transações, órgãos de saúde apertam o cerco ao monitorar eventos adversos.
Entenda como a tirzepatida age e por que pode desencadear inflamação
A tirzepatida estimula os receptores de GLP-1 e GIP, hormônios que aumentam a saciedade, retardam o esvaziamento gástrico e reduzem a glicemia. O problema é que esse estímulo frequente ao pâncreas pode, em indivíduos suscetíveis, iniciar um processo inflamatório. A maioria dos pacientes não sente nada, mas uma minoria progride para pancreatite aguda.
Os mecanismos exatos ainda são estudados. Hipóteses atuais mencionam desde predisposição genética até obstrução do ducto pancreático por cálculos biliares — fator de risco que muitas vezes passa despercebido quando o remédio é comprado sem receita.
Pancreatite necrosante: complicação que eleva chance de óbito
Na forma necrosante, a inflamação corta o suprimento sanguíneo do pâncreas. Sem oxigênio, o tecido morre e se torna terreno fértil para infecções graves, podendo evoluir para falência de múltiplos órgãos. Os 24 casos descritos pela MHRA reforçam a gravidade: mesmo com terapia intensiva, a taxa de mortalidade ultrapassa 15 %.
Além dos riscos sistêmicos, o tratamento costuma exigir internação prolongada, antibióticos potentes e, às vezes, cirurgia para remoção do tecido necrosado. Em países com menor acesso a UTIs, a perspectiva se agrava.
Por isso, detectar sinais precoces faz diferença. Dor abdominal irradiando para as costas e vômito implacável são os principais alertas. Quem usa Mounjaro deve buscar ajuda antes que o quadro atinja esse estágio.
Sintomas críticos e conduta imediata para usuários de agonistas de GLP-1
Se você ou alguém próximo faz uso de Mounjaro, Wegovy ou Ozempic, memorize os sinais listados pela MHRA:
- Dor na parte superior do abdômen que não cede com analgésicos comuns e pode ir para as costas;
- Náuseas acompanhadas de vômitos repetidos;
- Febre persistente e ritmo cardíaco acelerado;
- Sensibilidade extrema ao palpar a região abdominal.
Ao primeiro sintoma, a orientação é suspender a aplicação do medicamento e procurar pronto-socorro. Lá, exames de sangue — amilase e lipase — confirmam o diagnóstico. Caso a pancreatite seja descartada, o tratamento até pode ser retomado, mas só após liberação médica.
Uso off-label amplia o risco de pancreatite
O relatório britânico sugere que parte dos casos ocorreu fora do contexto de diabetes tipo 2. A busca por emagrecimento rápido popularizou o uso estético, muitas vezes sem recomendação profissional. Sem triagem adequada, pacientes com cálculos na vesícula ou histórico de pancreatite acabam expostos a complicações severas.
Outra preocupação é a venda irregular em academias e redes sociais, onde se multiplicam relatos de “doses de manutenção” sem qualquer respaldo clínico. A prática contraria orientações de sociedades médicas e compromete o rastreamento de eventos adversos.
Embora órgãos reguladores reforcem que o risco de pancreatite permanece baixo, a automedicação transforma cada seringa em uma roleta-russa bioquímica. Vale lembrar que o custo de uma internação por pancreatite necrosante pode superar dezenas de milhares de reais, valor bem maior que o gasto anual com consultas e exames de rotina.
Supervisão médica permanece indispensável
Endocrinologistas defendem uma anamnese completa antes da primeira dose: exames de imagem da vesícula, histórico familiar de doenças pancreáticas e checagem de triglicérides elevados. Durante o uso, consultas trimestrais e ajustes de dosagem reduzem a chance de complicações.
Essa abordagem proativa tem sido incorporada a protocolos hospitalares em diversas capitais brasileiras. O objetivo é identificar quem corre mais risco e oferecer alternativas, como agonistas de GLP-1 isolados ou terapias não farmacológicas.
Enquanto isso, fabricantes colaboram com autoridades para atualizar bulas e criar programas de farmacovigilância. O relatório da MHRA funcionou como catalisador e, segundo especialistas, novos dados deverão ser divulgados nos próximos meses.
Até lá, a palavra-chave é cautela. O Mounjaro segue relevante no manejo do diabetes tipo 2 e da obesidade, mas exige responsabilidade compartilhada entre médico e paciente. Informar-se, reconhecer sintomas e evitar o uso sem receita representam os primeiros passos para manter o risco de pancreatite no nível mais baixo possível.


