A trajetória de Débora Garofalo já estava marcada por prêmios e indicações internacionais, mas o reconhecimento obtido em Dubai, na última segunda-feira (2), elevou o patamar de sua carreira. A docente da rede pública paulista foi anunciada pela Varkey Foundation como a primeira “educadora mais influente do mundo”, honraria criada neste ano para destacar profissionais que utilizam as redes sociais para multiplicar conhecimento além dos muros da escola.
O novo título, comparado por especialistas ao “Nobel da Educação”, consolida a docente como referência global em inovação pedagógica. À frente do projeto Robótica com Sucata, Débora transformou resíduos recolhidos em bairros vulneráveis da capital em ferramentas para ensinar ciência e tecnologia a crianças e adolescentes.
De professora de periferia a referência mundial
A cerimônia promovida pela Varkey Foundation ocorreu no Atlantis, The Palm, em Dubai, e reuniu líderes do setor educacional. Ao receber o troféu das mãos de Jay Varkey, vice-CEO da GEMS Education, Débora se emocionou e ressaltou que o prêmio aumenta sua responsabilidade: “É uma voz mundial que se soma à luta por melhores condições de ensino”, declarou.
A fundação justificou a escolha destacando o alcance digital do trabalho da brasileira. Em vídeos curtos, publicações e transmissões ao vivo, ela compartilha metodologias, materiais de apoio e resultados alcançados com a robótica de baixo custo. O conteúdo, segundo a entidade, já inspirou programas semelhantes em outros países da América Latina e na África.
O prêmio e sua importância
Tradicionalmente conhecida pelo Global Teacher Prize, a Varkey Foundation decidiu criar uma distinção específica para educadores que conseguem, por meio das mídias sociais, impactar estudantes e colegas de profissão em escala global. O selo de “educadora mais influente do mundo” estreou justamente para atender a essa nova realidade, na qual o professor se torna criador de conteúdo e multiplicador de conhecimento online.
Mais de dez mil candidaturas de 179 países foram analisadas. Os avaliadores consideraram alcance das publicações, relevância pedagógica, aderência às competências do século 21 e impacto mensurável na aprendizagem. Débora não apenas preencheu todos os requisitos; seu projeto também apresentou economia circular, inclusão social e resultados acadêmicos consistentes.
A honraria reforça a importância de iniciativas que dialogam com sustentabilidade e tecnologia. Para a Varkey Foundation, conectar esses temas à realidade de escolas públicas mostra caminhos viáveis de inovação, mesmo em contextos de poucos recursos.
Robótica com sucata: quando lixo vira aprendizado
A ideia surgiu em 2015, na Escola Municipal Almirante Ary Parreiras, situada entre quatro comunidades marcadas por problemas de coleta de lixo e violência urbana. Alunos relatavam faltar às aulas em dias de chuva porque o acúmulo de resíduos obstruía ruas. Sensibilizada, Débora enxergou na adversidade uma oportunidade pedagógica.
Ela passou a recolher sucata com os estudantes e, dentro da sala de aula, transformou latas, garrafas PET, fios e motores descartados em robôs, carrinhos e protótipos de embarcações. Ao final do primeiro ano, mais de uma tonelada de material havia sido reutilizada. Além de abordar física e programação, o projeto reforçou noções de cidadania e consciência ambiental.
Impacto além da sala de aula
Os resultados extrapolaram o desempenho acadêmico imediato. Houve redução do abandono escolar, aumento da autoestima e engajamento das famílias, que passaram a participar de mutirões de limpeza para fornecer matéria-prima às oficinas de robótica. A comunidade também viu o entorno da escola ganhar novos contornos, com ruas limpas e áreas verdes preservadas.
No âmbito municipal, o projeto inspirou outras unidades a criarem clubes de ciência baseados em reuso de materiais. O sucesso pavimentou o caminho para que Débora fosse indicada, em 2019, ao Global Teacher Prize, onde ficou entre os dez finalistas — feito inédito para a América do Sul até então.
Para especialistas, o caráter replicável da iniciativa é o diferencial. Tudo é documentado em planilhas abertas e compartilhado em redes sociais. Qualquer professor, mesmo sem formação específica em programação, pode copiar a metodologia e adaptá-la à sua realidade.
Próximos passos e legado da educadora mais influente do mundo
Depois de ganhar visibilidade internacional, Débora assumiu funções estratégicas na Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, participando do programa Inova Educação, que incluiu a disciplina de Tecnologias no currículo. Ela também colaborou com a Secretaria de Educação do Rio de Janeiro em projetos de formação de professores.
Atualmente, seu foco é ampliar a capacitação docente em tecnologia e sustentabilidade, questões que considera inseparáveis. Em conversas com autoridades, a educadora enfatiza que investir em infraestrutura é essencial, mas sem abrir mão de conteúdos que dialoguem com problemas concretos do cotidiano dos estudantes.
No Salão do Livro, evento literário que frequenta desde a adolescência, ela costuma lembrar que sua paixão pela leitura foi o motor para imaginar soluções. “Antes de programar robôs, a gente precisa ler o mundo”, costuma repetir em palestras que lotam auditórios dentro e fora do Brasil.


