Quando o telefone tocou, num sábado à tarde, Débora Garofalo não imaginava que cruzaria o oceano 48 horas depois. A chamada, vinda da Varkey Foundation, adiantava apenas um “reconhecimento” em Dubai. Sem detalhes, a professora embarcou e, no Oriente Médio, descobriu que havia sido eleita educadora mais influente do mundo.
A honraria, criada este ano pela mesma organização que administra o Global Teacher Prize, celebrou uma trajetória construída nas salas de aula paulistanas e nas redes sociais, onde a docente amplia o alcance de suas práticas de inovação pedagógica.
O reconhecimento inédito em Dubai
A cerimônia, realizada em 2 de outubro nos Emirados Árabes, reuniu finalistas de vários continentes. Entre eles, apenas Débora subiu ao palco para receber o novo troféu que destaca quem usa mídias sociais para expandir o aprendizado além da escola. Foi a primeira vez que a Varkey Foundation entregou o prêmio e, consequentemente, a primeira vez que uma brasileira o conquistou.
Em entrevista logo após o evento, Débora resumiu o sentimento: o título de educadora mais influente do mundo dá visibilidade à escola pública e reforça a necessidade de investimentos governamentais. Segundo ela, o prêmio não pertence somente à sua pessoa, mas a cada estudante, professor e rede de ensino representados naquela noite de gala.
Detalhes do prêmio e critérios de escolha
Diferente do Global Teacher Prize, que avalia melhorias mensuráveis em resultados acadêmicos, a nova categoria examina impacto digital. O comitê analisou alcance de postagens, interação com alunos fora do horário de aula e a capacidade de transformar redes sociais em extensão do currículo.
Débora se destacou por divulgar tutoriais de baixo custo, lives sobre robótica com sucata e fóruns de aprendizagem colaborativa. A repercussão dessas ações, acompanhada por educadores de países como Índia, Quênia e Holanda, foi considerada determinante para a escolha.
Além do troféu, a professora ganhou a oportunidade de integrar um conselho internacional de inovação educacional que se reunirá trimestralmente para discutir políticas públicas. A nova atribuição, nas palavras dela, aumenta a responsabilidade de dar voz à escola pública brasileira no debate global.
Da periferia paulistana ao palco global
A trajetória que culminou no prêmio começou em 2015, quando Débora lecionava tecnologia na Escola Municipal Almirante Ary Parreiras, localizada entre quatro comunidades marcadas pela falta de infraestrutura. Ali, o excesso de lixo nas ruas dificultava a frequência dos alunos em dias de chuva. O problema virou ponto de partida para o projeto “Robótica com sucata promovendo a sustentabilidade”.
Recolhendo materiais descartados, a docente ensinou programação e eletrônica a crianças de 6 a 14 anos. Carrinhos, barcos, controles remotos e até uma máquina de refrigerante nasceram de embalagens jogadas ao chão. Em pouco tempo, mais de uma tonelada de resíduos foi reaproveitada, transformando a paisagem do entorno e o engajamento dos estudantes.
Reconhecimento anterior e desdobramentos
A iniciativa já havia colocado Débora entre as dez finalistas do Global Teacher Prize de 2019, feito inédito para um profissional da América do Sul. Ainda naquele ano, ela passou a atuar em cargos estratégicos da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, contribuindo para a implementação da disciplina de tecnologias do programa Inova Educação.
No biênio seguinte, a professora prestou consultoria à Secretaria de Educação do Rio de Janeiro e manteve projetos independentes voltados ao letramento digital. O trabalho de campo inclui oficinas em escolas rurais e palestras que, segundo a educadora, buscam mostrar que “inovação não depende de laboratórios caros, mas de propósito”.
Para o Salão do Livro, iniciativa que ela acompanha como parceira pedagógica, Débora já confirmou participação em mesas sobre cultura maker e sustentabilidade, previstas para o próximo semestre.
Impacto do projeto de robótica na sala de aula
O principal legado da educadora mais influente do mundo é demonstrar que problemas locais servem de motor para aprendizagens significativas. Na Ary Parreiras, alunos antes desmotivados passaram a disputar quem recolhia mais sucata, conscientes de que cada peça poderia virar parte de um robô.
A metodologia integra conceitos de ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática (STEAM) com questões ambientais do cotidiano. Ao construir protótipos, as turmas desenvolvem pensamento crítico, trabalho em equipe e, sobretudo, pertencimento à comunidade.
Depoimentos de alunos e próximos passos
Ex-alunos relatam que a experiência abriu portas para cursos técnicos e bolsas de iniciação científica. Um grupo que participou do projeto em 2017, por exemplo, hoje cursa engenharia e mantém contato frequente com a antiga professora para compartilhar conquistas.
Débora pretende usar o prêmio para multiplicar a iniciativa. A meta é criar um hub colaborativo onde professores do país inteiro possam acessar planos de aula, vídeos e orientações para replicar a robótica com sucata nas suas realidades.
No imediato, ela volta à sala de aula para concluir uma série de oficinas que ficaram suspensas durante a viagem ao Oriente Médio. “O troféu está na mala, mas minha maior vitória é reencontrar os estudantes e continuar construindo conhecimento com eles”, afirma, antes de retomar o cotidiano de quem já se acostumou a transformar lixo em oportunidade.


