As luzes festivas já tomam conta das ruas, mas muita gente ainda sente que o corpo ficou preso em março. O ano de 2025 terminou com reuniões intermináveis, prazos apertados e um noticiário que não deu trégua. Em vez de listas de metas, dezembro convida a buscar histórias que entendam o cansaço — não que prometam milagres.
Nesta curadoria do Salão do Livro, quatro romances lançam um olhar terno sobre esgotamento, luto e rotinas reconstruídas no detalhe. São livros para ler em dezembro, lentamente, quando o calendário aperta e a mente pede pausa.
Cansaço coletivo pede narrativas acolhedoras
O sentimento dominante de 2025 foi a exaustão silenciosa: jornadas híbridas que invadiram fins de semana e alertas de notícias que nunca cessavam. Ao fim de doze meses acelerados, a busca por leituras se torna, mais do que distração, um gesto de cuidado.
Nesse contexto, ganharam força obras que retratam personagens à beira do colapso, porém atentos a gestos mínimos de afeto. A procura lembra o interesse crescente por obras enxutas que cabem num dia, tema já abordado em livros curtos com impacto longo. Aqui, entretanto, o foco está em narrativas que acolhem o ritmo de quem lê devagar.
Quatro romances que conversam com o fim de ano
Da Argélia à Noruega, passando pelo Japão, as escolhas a seguir lidam com traumas recentes e a necessidade de inventar novas rotinas. São, portanto, livros para ler em dezembro sem pressa, entre uma confraternização e outra.
Trauma e fé em “Língua interior” e “Heptalogia”
Língua interior (2024), do argelino Kamel Daoud, acompanha Aube, sobrevivente de um massacre na guerra civil que passa os dias em Orã. Grávida, ela encontra refúgio em um monólogo dirigido ao feto ainda sem nome, mesclando memórias dilacerantes e tarefas do salão de beleza onde trabalha. O autor constrói uma voz que oscila entre denúncia do horror e vontade de proteger o filho de um passado que insiste.
Na Heptalogia (2019-2021), o norueguês Jon Fosse coloca seu pintor viúvo Asle em permanente diálogo com um duplo alcoólatra. A narrativa serpenteia por estradas geladas e telas quase vazias, dissolvendo tempo e oração. A estrutura em espiral reforça a ideia de que a dor não some, apenas encontra novas formas de ser narrada.
Ambos os romances testam a possibilidade de linguagem diante do trauma. Enquanto Daoud recorre a imagens truncadas, Fosse investe em repetições que lembram maré. Nessa dualidade, o leitor percebe que existir em meio ao cansaço é, antes de tudo, insistir no relato.
Cozinhas, luz e recomeços em “Kitchen” e “Território da luz”
Publicado em 1988, Kitchen tornou Banana Yoshimoto um fenômeno. Mikage Sakurai, órfã de afetos, encontra consolo no zumbido do refrigerador e na amizade com Yuichi e Eriko. O romance se constrói em torno de panelas, chás e conversas noturnas, mostrando que preparar uma refeição pode ser o primeiro passo para suportar o luto.
Já Território da luz (1979), de Yuko Tsushima, foca em uma mãe recém-separada que aluga um apartamento inundado de claridade. A luz, ao mesmo tempo aliada e acusadora, expõe as contas atrasadas e ilumina pequenas vitórias: levar a filha à creche, organizar colchões, recusar interferências do ex-marido.
Se Yoshimoto oferece calor doméstico, Tsushima trabalha a frieza de um espaço vazio a ser preenchido. Ambas, porém, sublinham que persistir nos detalhes — seja preparando chá, seja limpando o chão — já constitui forma de resistência.
Ler devagar como resistência
Em dezembro, convites pipocam, filas se alongam e balanços anuais dominam as redes sociais. Reservar tempo para esses quatro livros para ler em dezembro funciona como pequena suspensão cotidiana: nada exige respostas imediatas, apenas presença atenta.
O movimento lembra a busca de artistas por portos seguros, tal qual a biblioteca íntima de Patti Smith, que revela como leituras acompanham períodos de turbulência. Nessas páginas, a desaceleração não é luxo; é mecanismo de sobrevivência.


