A maior ilha do planeta voltou à vitrine mundial quando Washington indicou interesse estratégico sobre seu território. No entanto, antes mesmo de qualquer disputa moderna, a Groenlândia carrega um histórico complexo de colonização, apagamento cultural e resistência.
No centro dessa narrativa está o termo esquimó, expressão abandonada por ser vista como pejorativa. O povo inuíte, primeiro habitante da região, reivindica o próprio nome e o direito de contar a própria história.
Da origem do termo ‘esquimó’ ao desuso atual
Registros linguísticos mostram que o termo esquimó foi popularizado por colonizadores para se referir aos inuítes como “comedores de carne crua”. A alcunha refletia estereótipos sobre alimentação e costumes, reforçando uma noção de inferioridade diante do olhar europeu.
Embora tenha circulado por séculos em documentos oficiais e na mídia, a palavra nunca foi escolhida pelos próprios inuítes. Eles sempre se autodenominaram “Inuit”, que significa simplesmente “pessoas”. A mudança de vocabulário ganhou força a partir de movimentos indígenas do século XX e passou a ser adotada por órgãos internacionais.
Hoje, universidades, manuais de estilo jornalístico e organismos como a ONU recomendam evitar o uso de esquimó. A substituição não é mero detalhe linguístico: trata-se de reconhecer a autonomia cultural dos 56 mil habitantes da ilha, dos quais a maioria se identifica como inuíte.
Colonização dinamarquesa e apagamento cultural
A história de imposição cultural começou no fim do século X, quando vikings oriundos da Islândia batizaram a ilha de Groenlândia, “terra verde”, para atrair colonos. A narrativa romântica escondia o fato de que o território se mantém coberto de gelo na maior parte do ano.
Nos séculos seguintes, o domínio passou oficialmente à Dinamarca, selando um período em que a população local pouco foi consultada sobre seu futuro. Escolas passaram a ensinar apenas dinamarquês, enquanto missionários cristãos tentavam suprimir ritos inuítes.
Educação imposta e cristianização
Nas salas de aula coloniais, crianças eram proibidas de usar o idioma inuíte. O currículo, centrado em valores europeus, relegava mitos, formas de caça e tradições orais ao esquecimento. Quem insistia na língua materna sofria punições simbólicas e, por vezes, físicas.
A catequese cristã reforçou essa ruptura. Festivais ancestrais ligados ao ciclo de caça foram substituídos por ritos religiosos importados. Casas comunitárias que funcionavam como centros de transmissão de conhecimento foram desmontadas ou transformadas em capelas.
Esse processo diminuiu o número de falantes fluentes e interrompeu a transmissão intergeracional de lendas, cantos e técnicas de sobrevivência no gelo, pilares identitários dos inuítes.
Consequências sociais contemporâneas
Apesar de a Groenlândia oferecer educação e saúde gratuitas hoje, muitas feridas históricas permanecem abertas. A dependência financeira persiste: metade do orçamento local ainda vem de Copenhague, dificultando planos concretos de independência plena.
Problemas como alcoolismo e taxas elevadas de suicídio revelam o impacto de séculos de desarticulação social. Pesquisadores relacionam esses indicadores ao sentimento de perda cultural e à falta de perspectivas econômicas que dialogue com a tradição inuíte.
Ao mesmo tempo, movimentos artísticos e literários florescem na capital Nuuk, buscando reconstruir o orgulho identitário. No Salão do Livro, evento que inspira leitores a mergulhar em novas narrativas, autores inuítes costumam ganhar espaço para apresentar crônicas e poemas em língua própria, recuperando uma voz silenciada.
Enquanto isso, setores políticos locais pressionam por maior autonomia. O governo dinamarquês já transferiu parte da gestão interna, mas ainda controla polícia, justiça e política externa, mantendo vínculos que remontam ao período colonial.
Interesse geopolítico renovado no Ártico
O derretimento acelerado do gelo ártico cria novas rotas marítimas e expõe recursos minerais estratégicos, da neodímio ao urânio. Gigantes globais veem na Groenlândia uma mina de matérias-primas essenciais para carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos de alta tecnologia.
Não por acaso, bases da OTAN e postos militares russos se proliferam na região, transformando o Ártico em palco de disputas. Autoridades inuítes, no entanto, rejeitam qualquer insinuação de “venda” da ilha e repetem: “Nós não somos mercadoria, somos um povo”. Tal afirmação reforça a importância de abandonar o termo esquimó e reconhecer a autodeterminação cultural dos habitantes da maior ilha do mundo.


