Um subproduto inusitado do gado brasileiro, o pênis bovino, deixou de ser mera curiosidade de açougue e virou ativo valioso na pauta de exportações. A alta demanda em Hong Kong e na China empurrou os preços a patamares bem acima dos praticados internamente, abrindo uma nova vertente de negócios para frigoríficos e pecuaristas.
O fenômeno movimenta a cadeia produtiva ao mesmo tempo em que reduz desperdícios, ao aproveitar partes antes relegadas a subprodutos de baixo valor. A seguir, entenda por que o vergalho, como é chamado no campo, entrou de vez no radar do agronegócio e tem gerado cifras expressivas.
Demanda asiática transforma subproduto em artigo de luxo
Hong Kong e China concentram boa parte das encomendas que saem de plantas frigoríficas em São Paulo, Mato Grosso e Goiás. Nessas praças, a tonelada do pênis bovino chega a alcançar US$ 6 mil, cotação que supera de longe o valor pago por muitos cortes tradicionais no mercado interno.
Esse apetite oriental explica-se tanto pela culinária local quanto por crenças relacionadas às propriedades afrodisíacas do alimento. Independentemente do motivo, o resultado é concreto: margens maiores e receita extra para quem exporta. Para empresas do setor, ampliar o mix de produtos significa, ainda, reduzir a dependência de itens com preços mais voláteis.
Logística e padrões sanitários impulsionam confiança do consumidor
A competitividade brasileira vai além da escala de produção de gado. Processamento padronizado, certificações sanitárias e rastreabilidade permitem atender exigências rígidas impostas pelas autoridades asiáticas, garantindo ao importador que o vergalho chegue livre de contaminações.
Frigoríficos que dominam essas etapas saem na frente. O cumprimento de protocolos de bem-estar animal e o uso de tecnologias de resfriamento rápido preservam textura e coloração, fatores valorizados pelos compradores. Esse cuidado reforça uma imagem positiva do produto brasileiro no exterior.
Em Salão do Livro, por exemplo, a editoria de economia já observava que o país precisava diversificar a pauta de exportações. O pênis bovino aparece como resposta pragmática: agrega valor sem demandar novas áreas de pastagem, algo que fortalece o discurso de sustentabilidade do agronegócio.
Culinária tradicional sustenta consumo do pênis bovino
Nos restaurantes de Pequim, Cantão e Hong Kong, o vergalho costuma compor ensopados de cozimento lento. A cartilagem interna libera colágeno, engrossando caldos e conferindo textura macia. Em versões mais apimentadas, o prato figura em cardápios de street-food até estabelecimentos de alta gastronomia.
Há também quem atribua propriedades medicinais ao consumo da iguaria, embora não existam estudos científicos que confirmem tais benefícios. O que se comprova, na prática, é a disposição dos clientes em pagar caro por algo que, em muitos países, seria descartado ou destinado à alimentação de pets.
Do prato ao pote de ração: dois destinos, uma mesma matéria-prima
Enquanto a Ásia eleva o pênis bovino ao status de ingrediente valorizado, o Brasil emprega o mesmo corte em petiscos mastigáveis para cães. Desidratados, os bastões ricos em proteínas aparecem em pet shops como opções naturais de recompensa animal.
Para as indústrias, essa separação de mercado cria uma dupla via lucrativa: atendimento ao consumo humano no exterior e suprimento do segmento pet no país. A estratégia atende a lógica do aproveitamento total do boi, premissa que vem sendo adotada por grandes processadoras nos últimos anos.
O êxito reforça movimento observado em outros segmentos: seja ao abolir a baliza em provas de direção, como noticiado quando o Detran-SP simplificou o exame, seja ao flexibilizar normas de exportação de proteína animal, a adaptação rende benefícios concretos a empresas e consumidores.
Aproveitamento integral do boi fortalece agronegócio
Transformar cada centímetro do animal em produto comercializável não apenas reduz o descarte, mas eleva a rentabilidade. O pênis bovino soma-se a miúdos, couro e ossos como exemplos de itens que completam o leque de exportações, ampliando a competitividade do Brasil frente a outros produtores mundiais.
Ao mirar nichos específicos, frigoríficos ganham fôlego para atravessar períodos de oscilação cambial ou de demanda menor por cortes premium. Essa diversificação é vital em um setor que, a partir de 2026, deverá encarar mudanças tributárias semelhantes àquelas previstas para o mercado de aluguéis por temporada, com potencial impacto nos custos de produção.
Impacto em cadeia: do pecuarista ao varejo
Pecuária de corte, transportadoras, processadoras e comércio se beneficiam da venda do vergalho. Para o produtor rural, a valorização dessa parte do animal eleva o preço pago pelo boi gordo, incentivando investimentos em genética e manejo de qualidade.
No atacado, o item agrega novos códigos de produto, criando vagas em áreas de classificação, embalagem e exportação. Já o varejo especializado asiático amplia sortimento e margens, alimentando um ciclo virtuoso que retroalimenta a procura.
Além disso, a abordagem integral do abate atende exigências de sustentabilidade e responsabilidade ambiental, terreno onde políticas públicas tendem a endurecer, tal qual ocorreu com a obrigatoriedade de biometria no BPC. Empresas que antecipam mudanças regulatórias saem na frente quando novos selos verdes se tornam requisito de mercado.
A soma desses fatores projeta um cenário no qual o pênis bovino continuará figurando como trunfo comercial dos frigoríficos brasileiros. Enquanto a cultura gastronômica oriental mantiver o apetite pelo ingrediente, a tendência é que o vergalho siga rendendo dividendos e atestando a capacidade do país de agregar valor ao que antes era apenas sobra de abatedouro.


