Estudantes que concluíram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025 na condição de não concluintes do ensino médio ficaram sem o certificado prometido para esta sexta-feira, 30 de janeiro. A ausência do documento coloca em risco matrículas no Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e em processos seletivos de instituições públicas e privadas.
O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e o Ministério da Educação (MEC) chegaram a anunciar, logo no início do dia, que a declaração provisória já estava liberada na Página do Participante. A publicação, no entanto, foi desmentida por centenas de relatos que inundaram redes sociais e grupos de candidatos, provocando clima de ansiedade às vésperas do prazo de matrícula.
Documento prometido para 30 de janeiro não aparece na Página do Participante
A hipótese era simples: qualquer inscrito com mais de 18 anos, aprovado em todas as áreas do Enem com mínimo de 450 pontos e redação acima de 500, poderia baixar a declaração provisória de conclusão do ensino médio. Até as 10h da manhã, porém, a área destinada ao certificado exibia apenas as notas obtidas, sem qualquer botão para gerar o PDF.
Manoella Righi, 22 anos, aprovada em Engenharia de Minas na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), reabriu o site várias vezes e nada mudou. “Estou com medo de perder minha vaga, porque o prazo de matrícula é curto”, comentou. Situação idêntica vive Petrus Alves, convocado no Sisu, que chegou a tentar também pelo aplicativo, mas sem sucesso.
No mesmo cenário, Sara Cristina, moradora de Contagem (MG), dependia do certificado até o fim do expediente universitário desta sexta-feira. “A gente fica apreensiva porque já ocorreu atraso na outra vez”, disse. Gabrielly Oliveira, 27 anos, viu na lista de espera da Universidade Federal de Joinville a chance de entrar no curso desejado com bolsa integral do Prouni. Sem o papel, o medo é perder tudo “por causa de um erro do Inep”, afirmou.
Relatos de estudantes que podem perder a matrícula
Os depoimentos, que se multiplicam em fóruns estudantis e grupos de mensagens, traduzem o impacto direto de uma falha aparentemente técnica. Diogo Augusto, 21 anos, aprovado em Psicologia, buscou informações no Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e na Secretaria de Educação estadual. “Ninguém sabe explicar quando o certificado sai”, relatou.
Sem a validação eletrônica, instituições de ensino superior não têm respaldo legal para concluir a matrícula de candidatos que ainda não concluíram formalmente o ensino médio. Algumas universidades se mostram dispostas a aguardar, mas outras impõem limite rígido: perder o prazo significa perda de vaga e necessidade de novo processo seletivo.
O Salão do Livro, sempre atento a temas ligados à educação, acompanha a tensão desses jovens que, depois de vencer a maratona de provas e resultados, caminham para um obstáculo burocrático fora de seu controle.
Cronologia de mudanças e desencontros do Inep
O gargalo no certificado começou a ganhar forma desde a entrevista do presidente do Inep, Manuel Palacios, em 26 de janeiro. Na ocasião, Palacios declarou que um aplicativo “seria lançado em março”, mas, até lá, faculdades aceitariam matrículas sem a documentação final.
Um dia depois, a autarquia recuou: não haveria um app, e sim uma plataforma dentro da própria Página do Participante. Para evitar prejuízo, o órgão prometeu a declaração provisória já em 30 de janeiro. A promessa passou a valer como palavra oficial, repercutida pelo MEC.
Certificação por nota do Enem: quem tem direito
Desde maio do ano passado, portaria do MEC voltou a autorizar o Enem como via de certificação da educação básica, algo que não ocorria havia nove anos. O processo é simples no papel: atingir as notas mínimas, selecionar a instituição parceira (secretaria de educação ou instituto federal) e baixar o certificado.
Nesta edição, porém, o Inep não divulgou previamente quais autarquias estaduais ou federais estavam aptas a emitir o diploma, o que gerou confusão adicional. Sem saber qual órgão escolher, muitos candidatos se viram travados na tela de seleção da Página do Participante.
A falta de sinalização também chama atenção porque o início das matrículas no Sisu está marcado para 2 de fevereiro. Universidades federais, estaduais e privadas que utilizam a nota do Enem exigem comprovante de conclusão do ensino médio, condição básica para ingresso no ensino superior.
Riscos de vagas ociosas e pressão sobre as universidades
Ao não disponibilizar o certificado na data anunciada, o Inep empurra parte da responsabilidade para as próprias instituições de ensino. Algumas tendem a flexibilizar prazos, outras mantêm o calendário inicial por conta de vestibulares internos, início de aulas ou cumprimento de cronograma orçamentário.
Se a demora persistir, candidatos aprovados podem ser substituídos por nomes na lista de espera, gerando efeito cascata sobre novas chamadas. Nos bastidores, gestores temem que a desorganização resulte em vagas ociosas em meio ao semestre letivo, cenário que impacta turmas, professores e planejamento financeiro.
Procurados pela reportagem, Inep e MEC não responderam até o fechamento deste texto. Pelas redes sociais, ambos mantêm a informação de que “as declarações estão disponíveis”, apesar das evidências em contrário. Não há, até o momento, nota oficial atualizando prazos ou explicando o motivo do erro.
Enquanto isso, candidatos seguem em compasso de espera. Muitos acessam o portal a cada hora, na esperança de que o botão verde de “emitir declaração” finalmente apareça. Outros cogitam recorrer à Justiça para garantir matrícula ou solicitar liminar que obrigue universidades a aceitar documentação pendente.
Por ora, o problema continua sem solução prática. Quando – e se – o certificado for liberado, caberá aos estudantes imprimir, assinar e apresentar o papel no ato da matrícula. Até lá, resta monitorar atualizações do Inep e torcer para que a resposta chegue antes do encerramento dos prazos.


