Uma turma do último ano de medicina testemunhou, incrédula, a prescrição equivocada de um medicamento durante aula de patologia. O episódio, contado por um aluno que pede anonimato, ganhou novo peso depois de a faculdade receber nota baixa no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed).
Com mais de 30% das instituições reprovadas e quase 13 mil formandos sem atingir 60% de acertos, o exame trouxe à tona fragilidades já sentidas em sala. A sequência de falhas coloca em xeque tanto o currículo adotado quanto a segurança dos futuros pacientes.
O relato que acendeu o sinal de alerta
O estudante, matriculado em uma universidade particular do Rio de Janeiro, lembra do instante em que a professora indicou um protocolo desatualizado para tratar quadro clínico comum. “Nós nos olhamos e percebemos o erro de imediato”, diz. O constrangimento virou indignação: “Se, já na faculdade, um passo equivocado pode custar vida, imagine no plantão”.
Por receio de retaliação, ele preferiu preservar a identidade. Ainda assim, confirmou que a docente manteve o equívoco por vários minutos, até ser corrigida pelos próprios alunos. O caso reforça a percepção de que lacunas teóricas e práticas não são exceção, mas parte de um cenário mais amplo, refletido nos resultados do Enamed.
Enamed: números que preocupam
Aplicado a mais de 39 mil graduandos, o exame serve como termômetro para medir conhecimento ao final do curso. Dos avaliados, 30% das faculdades receberam notas 1 ou 2, patamar considerado insuficiente. Paralelamente, 12 983 estudantes não alcançaram a pontuação mínima exigida para aprovação.
Os dados geraram reação imediata do Ministério da Educação (MEC). O órgão prevê desde a proibição de novas vagas até processos administrativos para corrigir deficiências estruturais e pedagógicas. O diagnóstico, embora contundente, ainda precisa se traduzir em mudanças palpáveis na rotina dos campi.
Ao mesmo tempo, o Conselho Federal de Medicina reforçou apoio ao Projeto de Lei que cria o Profmed, exame obrigatório para registro profissional. Na visão da entidade, só assim será possível impedir que lacunas vividas na graduação se perpetuem no exercício da medicina.
Consequências para quem está prestes a se formar
Os alunos ouvidos descrevem mistura de ansiedade e frustração. A reprovação institucional afeta, de imediato, a imagem do recém-formado no mercado de trabalho. “Quando alguém lê o nome da faculdade no currículo, faz um juízo automático”, lamenta outro discente.
Além da reputação, existe o receio de restrições futuras. Caso o Profmed avance, quem passou por cursos com desempenho fraco pode enfrentar preparação extra para alcançar o nível exigido. “Não estudamos seis anos para ficar um degrau abaixo”, completa o universitário.
A título de comparação, em países onde o exame de licenciamento é prática antiga, faculdades investem pesado na atualização docente e na infraestrutura de ensino clínico. Na realidade brasileira, a disputa por orçamento e corpo técnico qualificado ainda desequilibra a oferta entre regiões e redes de ensino.
Por dentro das possíveis sanções do MEC
De acordo com portarias vigentes, instituições avaliadas com pior desempenho podem ter o número de vagas atuais reduzido ou congelado, além de ficar impedidas de abrir novos cursos. A medida busca evitar que deficiências se ampliem com novas turmas.
Outro ponto é o processo de supervisão. Nele, especialistas visitam os campi, analisam laboratórios, bibliotecas e carga horária prática. A partir disso, elaboram cronograma de correção de irregularidades. Se não houver adequação, o curso corre risco de descredenciamento.
Professores sob escrutínio
Embora o Enamed avalie estudantes, o resultado recai diretamente sobre o corpo docente. Aulas baseadas em materiais desatualizados, como no episódio narrado, evidenciam falhas de formação continuada. “A medicina muda rápido, e nós precisamos acompanhar”, admite um professor que também prefere não se identificar.
Levantamentos internos mostram que parte significativa dos docentes leciona em mais de uma faculdade para complementar renda. A sobrecarga atrapalha pesquisa, extensão e revisão de conteúdo. Sem tempo para reciclagem, chega-se ao quadro em que protocolos ultrapassados ainda circulam entre futuros médicos.
Para contornar o problema, algumas instituições investem em plataformas digitais e parceria com hospitais de referência. Entretanto, a adoção é desigual. Enquanto campi de grandes capitais avançam, unidades menores lutam para manter estrutura mínima de biblioteca, o que afeta o preparo para provas como o Enamed.
Impacto na sociedade e expectativa de mudanças
A discussão extrapola os muros das faculdades. Ao final, o paciente é quem pode sofrer consequência direta de diagnósticos imprecisos ou tratamentos incorretos. Por isso, entidades médicas defendem maior transparência nos resultados e plano de ação público para reverter índices baixos.
O MEC prometeu divulgar relatórios detalhados, permitindo que candidatos ao vestibular avaliem a qualidade dos cursos antes da inscrição. A medida tende a estimular concorrência saudável e forçar melhoria. Ainda assim, especialistas lembram que apenas fiscalização não resolve: é preciso investir na carreira docente e modernização de estágios.
Enquanto soluções ganham corpo, estudantes continuam no limbo entre a vontade de aprender e a fragilidade do ambiente acadêmico. O relato do protocolo errado, embora pontual, simboliza insegurança generalizada. “Queremos exercer a medicina com excelência”, resume o aluno. “Mas dependemos de uma formação sólida para isso.”
No Salão do Livro, onde leitores costumam buscar títulos sobre ciência e educação, histórias como essa reforçam a procura por obras que expliquem, de forma atualizada, as bases da prática clínica. A curiosidade do público mostra que a formação médica interessa não só a profissionais da saúde, mas a qualquer cidadão atento à qualidade do atendimento.


