O retorno do Exame Nacional do Ensino Médio como via para obter o diploma de conclusão do ensino médio deveria ser uma boa notícia para quem deixou a escola antes da formatura. No entanto, a proximidade das matrículas do Sisu 2026 transformou a expectativa em apreensão.
Centenas de candidatos, aprovados em cursos superiores graças às notas do Enem, relatam dificuldade para descobrir onde e quando solicitar o certificado obrigatório. A incerteza ameaça vagas já conquistadas e pressiona o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela emissão.
Aplicativo prometido pelo Inep
De acordo com o presidente do Inep, Manoel Palacios, um aplicativo específico para a certificação será disponibilizado até 2 de março. A ferramenta, construída em parceria inicial com o Instituto Federal de São Paulo (IFSP), pretende centralizar todo o processo e eliminar a necessidade de comparecer presencialmente a uma secretaria de educação ou instituto federal.
Palacios afirma que, logo após o lançamento, haverá comunicação formal às universidades, informando que o certificado poderá ser apresentado apenas depois da data limite de matrícula. O aviso oficial serviria para evitar que instituições recusem candidatos aprovados no Sisu ou em vestibulares próprios enquanto aguardam o documento digital.
Cronograma apertado
Apesar da promessa, o calendário preocupa. As matrículas começam em fevereiro, ou seja, antes de o aplicativo entrar em operação. Para quem passou em cursos concorridos, como medicina, direito ou psicologia, o risco de perder a vaga não é apenas teórico. “Passei em psicologia, mas não consigo me matricular sem o certificado”, relata Diogo Augusto, 21 anos, que percorreu sem sucesso o IFSP e a Secretaria de Educação paulista em busca de orientação.
Além disso, tentativas de contato telefônico com institutos federais cadastrados — entre eles o IFRN e o IFRR — têm se mostrado infrutíferas. Os links disponíveis no site do Inep para envio de documentos também não funcionam. O gargalo técnico expõe a fragilidade do cronograma e reforça a cobrança de transparência sobre o novo sistema digital.
Palacios minimiza as falhas iniciais. Segundo ele, o formato totalmente on-line representa a única maneira de garantir que todos os pedidos sejam analisados a tempo das próximas edições do Enem. “Queremos ter ao menos um parceiro em cada região do Brasil”, diz.
Ansiedade às vésperas da matrícula
O diploma do ensino médio via Enem pode ser solicitado por participantes maiores de 18 anos que tenham alcançado, no mínimo, 450 pontos em cada área do conhecimento e 500 na redação. Sem esse comprovante, as instituições de ensino superior não concluem a matrícula, conforme estabelecido pelo MEC.
Para estudantes como Petrus Alves, aprovado em engenharia mecânica na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o tempo é curto. “Em poucos dias preciso apresentar a documentação. Ainda não sei quando receberei o certificado”, conta. O atraso reacende memórias de 2017, quando o Enem deixou de servir como certificação e obrigou candidatos a esperar o processo seletivo seguinte para ingressar na faculdade.
Impacto direto nas universidades
Universidades federais que participam do Sisu alegam aguardar orientações formais do Inep para lidar com a pendência. Enquanto isso, secretarias acadêmicas estudam alternativas, como a assinatura de termos de compromisso exigindo que a documentação seja apresentada até data posterior à matrícula.
O Ministério da Educação acompanha a situação. Técnicos da Secretaria de Educação Superior avaliam que a postergação da entrega é juridicamente viável, mas reconhecem que a falta de clareza gera sobrecarga administrativa e insegurança entre calouros.
Na prática, o impasse cria disparidade entre dois grupos: jovens que já concluíram o ensino médio por vias tradicionais e adultos que dependem do Enem para receber o diploma. A segunda parcela teme ser preterida, mesmo após ter conquistado nota suficiente para o curso desejado.
Como vai funcionar a emissão digital
Quando o aplicativo finalmente estiver ativo, o participante deverá acessar a plataforma com o login gov.br. O próprio sistema verificará se o candidato tem 18 anos ou mais e se atingiu as notas mínimas exigidas pelo MEC. Caso os pré-requisitos sejam validados, o usuário escolherá a instituição certificadora e enviará a solicitação.
Segundo o Inep, o certificado sairá com assinatura eletrônica, data e código de verificação, garantindo autenticidade para apresentação nas universidades. O documento poderá ser baixado diretamente ou encaminhado por e-mail, reduzindo o trâmite físico e padronizando o processo em âmbito nacional.
Passo a passo previsto
1. Acesso com credenciais gov.br na Plataforma de Certificação Digital.
2. Validação automática de idade e pontuação.
3. Seleção do instituto federal responsável pela emissão.
4. Envio do pedido e inclusão na fila digital.
5. Análise e autorização pela instituição emissora.
6. Assinatura eletrônica e registro de autenticidade.
7. Disponibilização do certificado para download ou envio por e-mail.
8. Consulta on-line pelas universidades para confirmar a validade.
Palacios aposta na agilidade do novo sistema para evitar filas em secretarias estaduais — realidade recorrente até 2017. Ele lembra que, assim que novos institutos federais aderirem, a distribuição regional deve melhorar. A expectativa é contar com ao menos um polo de certificação por região brasileira até março.
No entanto, enquanto a plataforma não sai do papel, a incerteza persiste. A comunidade acadêmica permanece em alerta, e estudantes aprovados fazem apelos nas redes sociais para que o Inep apresente uma solução antes que o calendário de matrículas se encerre.
O Salão do Livro acompanha o desdobramento desse processo, que pode definir o futuro acadêmico de quem enxergou no Enem a chance de concluir o ensino médio e, em seguida, ingressar no ensino superior.


